5 de fevereiro de 2015

Certo poeta maria da graça almeida Bem aqui dentro de mim mora certo poeta de meio sorriso, meias palavras, meias verdades. Um incerto poeta, geração sem nome, que estrangula minha vontade de livre dizer o que melhor me aprouver. Um poeta escravo dos martírios da fome e da insensatez e pecados dos homens. É poeta morto esse que em mim ressuscita e comigo grita se não lhe traduzo o pensamento. Nasceu de buscas infinitas, filho da ansiedade e dos desejos, neto da denúncia e do inconformismo. É poeta masculino, réu indefensável. De minha lama fez seu ninho, de minha dor, o manto, de minha mágoa, o leito, onde falece e renasce em todas as horas, tratando o dia feito inútil domingo, a noite, tal qual fútil feriado. Esse certo poeta incerto é poeta suicida. De meu corpo fez seu ataúde, de meus dedos, a guirlanda, de minha garganta, o túmulo, de minha face, o retrato. Ele, morto ou vivo, por inteiro habita-me e eu nem bem sei o porquê, ponho-me à sua mercê... Imposição e domínio não me aviltam. A ele toda me doo, inda lhe empresto as linhas e o poeta rascunha, rabisca e usa-me. Abusa-me até das entrelinhas.

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