Maria da Graça Almeida, nascida em Pindorama - São Paulo.
Escritora, poetisa, professora, pedagoga e formada em Educação Artística.
Obras Físicas Publicadas:
- Espelho - Poesias Sem Mistério
- A Graça que o Bicho Tem
- Que traça sem graça
- Mitos do folclore
- A Menina da janela
- O Cuco Maluco
- O Besouro doente.
- Olhos espertos
- A substituta -romance
Invejo a independência da vegetação espontânea, que escolhe nascer onde melhor lhe aprouver. Não é, milimetricamente, planejada, nem, exaustivamente, controlada. Vive por viver, sem cobranças, como e quanto quiser. Habita jardins naturais sem canteiros convencionais, tem o céu por regador e o sol por cobertor... ou não. Larga-se livre e solta, sem estacas, sem escoras, deita as folhas ao chão ou alto vai, céu afora... Cava o próprio alimento sem mistura ou complemento, floresce sem norma ou padrão e se espalha, lindamente, sem limite, sem patrão...
Maria da Graça Almeida da antologia confraria dos poetas
Tua sensibilidade crítica
é que me traz e instiga,
a investigar teus escombros!
Quero no teu interior,
com euforia ou dor,
revelar os teus sonhos
Larga-te às minhas investidas,
são curiosidades antigas,
que me ligam a ti.
Deixa que eu te penetre
e jamais te apresses
em despir-te de mim.
Vou conferir-te a fundo,
saber-te profundo,
num chegar e partir.
E quando fores embora
ficarei aqui fora,
esperando por ti!
Sei que sempre tu voltas
e bates à porta,
que eu vou abrir.
Eu te recebo sorrindo,
achando tão lindo,
voltares pra mim.
27 de outubro de 2011
O Sapo
maria da graça almeida
O sapo coaxa
na beira do rio.
O sapo com fome,
coitado, não dorme...
O sapo é modesto,
mas quer um tesouro,
tesouro pra sapo
é um grande besouro.
O sapo é guloso,
e sempre quer mais.
Um outro besouro?
Assim é demais!
A gula não é fome,
ter gula é feio,
agora não dorme
de papo tão cheio!
Decreto de liberdade e amor
maria da graça almeida
A livrá-lo do constrangimento,
pesar e da imposição,
meu amor, por ser imenso,
vem deixá-lo à vontade
para que encaminhe seus passos,
de acordo com a própria opção.
Em face do seu silêncio
e da minha solidão,
meu amor, por ser imenso,
aceita as sobras advindas
de um envolvimento
que talvez sobreviva
por força da minha intenção.
Meu amor, por ser imenso,
poderá manter-se recluso
para que não julgue intruso
o tom de minhas notas digitais
e ora o deixa liberto
para que se indigne diante
deste tolo decreto
que de vez expõe
a pieguice dos meus ais.
Meu amor, por ser imenso,
entende o quão difícil
é desempenhar certos papéis,
por isto não finja pressentir cheia
quando baixa estiver sua maré.
Meu amor, por ser imenso,
mudo de lamentos,
vibrará com a autenticidade
de sua fé.
Ainda que para seu conforto,
não mais proclame
este amor imenso, sólido,
insólito, intenso,
a chama viva que me habita
jamais se extinguirá.
Ah! este meu amor
sem bom senso,
desmedido, indefenso...
eternamente me acompanhará.
Os faróis dos trens, ao chegar à cidade, incidiam sobre o salgueiro chorão,
que prateado soluçava, num espetáculo inesquecível de farta inquietação...
Desde o tempo de menina almejava em meu jardim o chorão ou a casuarina
Lindo é seu porte, belas as suas hastes, recheadas de folhas longilíneas , que lânguidas, femininas voltam-se ao chão, porém, a superstição inibiu-me a intenção. Associei-o à tragédia de meus amigos, precocemente expulsos da vida - ainda que o chorão não tivesse tido nenhuma participação, a não ser pelo balouçante espectro, que, no quintal, depois da partida dos moços em questão, altivo, subia, em sinistra exibição.
Implantou-me sua figura à memória e sobre mim cristalizou-se feito símbolo de tal história. Fato que não me permitiu concretizar o antigo desejo, ora adormecido. Em face de tal associação não cedi aos impulsos do plantio,
e, hoje em dia, a redimir-me da extrema covardia, resolvi escrever um inócuo poema cujo espécime uso agora como tema.
Salgueiro chorão
Maria da Graça Almeida
Na ilha da terra sofrida,
no fim do mundo e da vida,
humilde, olhando o chão,
triste gemia o chorão.
- Por quem choras, ó chorão,
este choro sem consolo?
Cá estou, à tua mão,
ofertando-te apoio!
- Este choro é bem antigo,
sufocado, reprimido,
pois de face para o chão,
não vejo da lua o clarão!
- Alegra-te, bom amigo,
não desprezes o que digo,
na água que te rodeia,
tão mais perto refletida,
terás linda a lua cheia!
(Quando o olho então já cego,
às visões da alma me entrego.
Aos reveses desta vida,
soluções alternativas.)