Amo-te
maria da graça almeida
Antes de ti eu ignorava o sabor do amor
antes de ti não tinha motivos para conhecê-lo,
até que surgiste, não percebia a bonança exterior
tampouco o frescor amigo da brisa interior.
Despertaste em mim um sentimento
que enobrece a alma e acalma as inquietudes;
que me fortalece as virtudes e me embala
sob a melodia do aconchego e da ternura humana.
Incitas-me a usufruir a maneira de viver
como desde a tenra infância desejei;
deste -me o direito de optar pelas próprias trilhas,
tiraste a sombra da melancolia
que velava meu coração ansioso.
A calmaria que experimento no fundo do peito
devo-a a ti, porém sei que igualmente a devo a mim
quando permiti que a magia do teu amor
me envolvesse plenamente;
quando pressenti a resplandecência de tua aura;
quando me dispus a desfrutar de tua interioridade.
Amando-te, fiz por amar-me também
ao amar o sentimento de amor que habita em mim
e que ora, eterno, alimento por ti.
Amo-te.
Maria da Graça Almeida, nascida em Pindorama - São Paulo. Escritora, poetisa, professora, pedagoga e formada em Educação Artística. Obras Físicas Publicadas: - Espelho - Poesias Sem Mistério - A Graça que o Bicho Tem - Que traça sem graça - Mitos do folclore - A Menina da janela - O Cuco Maluco - O Besouro doente. - Olhos espertos - A substituta -romance
22 de junho de 2013
28 de abril de 2013
13 de abril de 2013
Brasília
Brasília
maria
da graça almeida
Cidade
que lembra uma praia sem mar,
ou
nave inerte bem rente ao chão...
Pesada
é a asa que faz por alar
o
corpo insensato da corrupção
Ao
tentar a busca por certo alento
que
a alma saudável ou enferma, recruta,
mesmo
envolvido ou com nada atento
pressinto
até, plena em constrangimento,
passado
o tempo de colher boa fruta.
Murmúrios,
cochichos, sibilos, conchavos,
segredos,
conluios e a aviltação,
ofuscam,
seguros, a luz e o brilho
da
crença que um dia amparou a nação.
Espero
que ainda, das torpes doutrinas
vejamos
Brasília trocar as cortinas,
pois
ora se sabe que a roxa ganância
seja
ela anciã ou ainda menina
contrapõe-se
ao tom do verde-esperança.
Ao
nos relembrarmos da bela cidade
reportamo-nos,
todos, a todo o país
que
agora revela ter a identidade
descritas
por manchas de rubro matiz...
E
a nave que só aprendeu a voar
nos
doces delírios presidenciais
enleou-se
em tramas de agudas barreiras
e
mostra que até para os feitos cabais
a forte ambição delimita as fronteiras.
31 de janeiro de 2013
Verbo ser
maria da graça almeida
A vida que nascia escondida, sob o gerânio
e as cravinas,
não era feito a que se via no alto das
árvores ressequidas.
O ser que no baixo se avistava
desconheceria a inebriante vertigem da altura.
Era uma nova vida que apesar da beleza do leito
natal,
cama reflorida, explodia em vitalidade rastejante,
gosmenta e asquerosa.
O mesmo não se diria do outro vivente
que entre palhas, capim e galhos secos
-tosca e rude ambientação -
mais tarde experimentaria, nos céus,
as delícias dos largos e audaciosos vôos.
Era a surpresa dos desabrochares;
era o conflito da beleza plena com a
repugnância total;
um embate de quem olhava apenas o ali, o agora,
com quem vislumbraria o adiante, o depois.
Era o soluço de quem nada seria,
respondendo ao sorriso de quem tudo teria.
E nesse fim de
tarde atoleimado,
quando o nada a fazer dispôs-me às observações inúteis,
minhas divagações levaram-me a perceber
que a tempestade e a bonança de uns e outros
já foram retratadas por pares e pares
de olhos curiosos e, sobretudo, desavisados,
não cientes de que as fotografias não são
eternas,
mas, enquanto forem visíveis, serão imutáveis.
O que é independe da nossa força, vontade e fé.
O que é será sempre como sempre foi.
O que é sempre será.
5 de novembro de 2012
Meio- dia
Quando escrevi este poema, em pensamento,
eu estava no largo da Igreja de Pindorama.
Meio-dia
maria da graça almeida
Tudo ocorre ao meio-dia.
O dia chega ao meio,
o sol, de luz, é bem cheio;
o trem que vem e apita;
estômago oco se agita;
o guri pega a bola,
a mochila vai à escola.
Tudo ocorre ao meio-dia.
Na igreja insiste o s
o céu, no azul, é menino;
na praça clara, deserta,
o tédio do homem, desperta;
um cão se encolhe na rua,
o sol não vislumbra a lua.
Tudo ocorre ao meio-dia.
Dias nos tons da tristeza,
dias nos sóis da alegria .
Dias de pão sobre a mesa,
dias do adeus à fartura.
Pare um dia e repare
o dia ao meio-dia,
num sol tão forte que arde,
tão longe está da manhã,
quão longe, do fim da tarde.
O dia é muito mais dia,
sem atraso, sem desconto,
quando já é meio-dia,
um dia ao meio em ponto.
Maria da Graça Almeida.
4 de agosto de 2012
Chuva doce
maria da graça almeida
Quero que a chuva
chova: plim... plim...
gomas e balas
de amendoim.
A boca e as mãos
porei bem abertas
pra chuva esperta
pingar sobre mim!
Se a chuva descer,
feitinha, assim,
de gomas e balas
de amendoim,
será que a mamãe
dirá pra chover
escovas-de-dente
em cima de mim?
10 de abril de 2012
Confusão
Confusão
maria da graça almeida
Ainda que tenham significados diversos,
há quem, comumente, confunda:
prepotência com liderança;
arrogância com competência;
persistência com teimosia;
delicadeza com submissão;
empreendedorismo com ganância;
gentileza com fraqueza;
precaução com medo;
impetuosidade com coragem;
comedimento com avareza;
desperdício com generosidade;
bondade com tolice;
timidez com orgulho;
extroversão com exibicionismo;
carinho com compaixão;
inveja com admiração;
ódio com ciúme;
permissividade com amor;
insegurança com perfeccionismo;
modéstia com incapacidade;
limites com desamor;
gula com fome;
agressividade com autoridade.
Há posturas que dificultam o discernimento
até das pessoas ditas perspicazes e observadoras.
Para diagnosticar tais características com melhor precisão
não há de se olhar com os olhos da visão e sim com os da percepção.
25 de março de 2012
8 de fevereiro de 2012
Aprender
maria da graça almeida
Anseio aprender coisas significantes, mas quero, primeiramente,
descobrir o porquê de alguns acontecimentos, ainda que de irrelevantes aspectos.
Por que sempre me parece que:
-o intervalo entre Segunda e Quinta é bem mais longo que o intervalo entre
Terça e Sexta?
-a manhã voa e a tarde se arrasta?
-o tempo passa mais velozmente depois que atingimos os quarenta anos?
-o último pedaço do biscoito sempre nos salta das mãos?
- o final da casquinha do sorvete é o mais gostoso?
-muitas pessoas são reverenciadas só depois da morte?
-a ordem passa-nos despercebida e a desordem salta-nos aos olhos?
-há homens que, quando embriagados, tornam-se de uma generosidade infinita
e prometem dar o que não têm?
-apenas nos sabemos felizes no tempo que já passou?
-a mulher de 40 é uma velha e o homem da mesma idade, um gato?
-no inverno não acreditamos que um dia usamos maiô
e no verão, achamos absurdo um dia termos usado casacos de lã?
-o bom acaba logo e o ruim demora?
-quando em viagem, a ida sempre é mais demorada que a volta,
ainda que percorrendo o mesmo percurso?
-os casais quando enquanto apaixonados não enxergam os defeitos do parceiro?
-os hábitos do companheiro tornam-se insuportáveis quando o amor decresce?
-acostumamo-nos à beleza das pessoas e dos objetos a tal ponto que chegará o dia em que
nos passará completamente despercebida?
-localizamos objetos cuidadosamente procurados apenas quando já desistimos de encontrá-los?
- a mulher esquece-se das dores do parto, assim que deseja ter outro filho?
1 de fevereiro de 2012
De quem falo?
De quem falo?
maria da graça almeida
maria da graça almeida
Mesmo indiscreta, não me calo: entraram em férias!... Não, não, aposentaram-se ... Civilidade, Delicadeza, Cordialidade, Simpatia por onde andam hoje em dia? Talvez consideraram-se um desserviço, talvez optaram pelo sumiço, talvez entediadas se mudaram, talvez morreram por falta de exercício, talvez se encontram em estado vegetativo num arcaico livro de etiqueta, talvez exterminadas das velhas receitas de convivência social, talvez encarceradas num antigo diário de registro pessoal, talvez relegados à poeira de um sótão abandonado, ou na escuridão de um porão judiado ... Mesmo indiscreta, não me calo: entraram em férias! Não, não, aposentaram-se...
maria da graça almeida
29 de janeiro de 2012
21 de janeiro de 2012
20 de janeiro de 2012
Boca esperta
Boca esperta
maria da graça almeida
Fala, fala, fala,
maquininha de palavras,
fala, fala, fala,
a boquinha não se cala.
Ri-se, ri-se, ri-se,
ri, sorri por quase nada,
ri-se, ri-se, ri-se,
sem motivo, a risada.
Chora, chora, chora,
soluçando, escancarada,
chora, chora, chora,
de uma forma exagerada.
Fala, ri e chora,
dia todo, toda hora,
fala, ri e chora...
maria da graça almeida
Fala, fala, fala,
maquininha de palavras,
fala, fala, fala,
a boquinha não se cala.
Ri-se, ri-se, ri-se,
ri, sorri por quase nada,
ri-se, ri-se, ri-se,
sem motivo, a risada.
Chora, chora, chora,
soluçando, escancarada,
chora, chora, chora,
de uma forma exagerada.
Fala, ri e chora,
dia todo, toda hora,
fala, ri e chora...
sempre pronta,
sem demora.
A boquinha abusada
da alternância é senhora.
da alternância é senhora.
4 de janeiro de 2012
De repente,
De repente
maria da graça almeida
De repente,
maria da graça almeida
De repente,
insiro-me no desleixo visual
ou na improdutividade da apatia,
deixo o espelho falando sozinho
ou o tempo correndo na inércia
de um relógio franzino.
De repente,
os valores viram pó,
a vontade ata-se em nós,
os desejos quedam-se aniquilados
e as expectativas jazem
num papel amarfanhado.
De repente,
o terço, a bíblia e a fé
tornam-se ateus,
o espaço, a minha volta, cresce
e eu decresço, neste mundo,
pigmeu...
De repente,
na impossibilidade dos passos,
prendo- me em famigerados laços,
e a letargia
sufoca-me, dia a dia.
De repente,
o sim endurece,
o não recrudesce
e o talvez fita-me
com olhar indiferente.
De repente,
o nada torna-se infinito,
o tudo se faz restrito
e, para sempre, a paz
transmuda -se
em conflito.
21 de dezembro de 2011
Quiçá
Quiçá
maria da graça almeida
Quiçá falássemos da Rosa,
que pela efemeridade das pétalas
tem frágil a aparência e breve a elegância;
quiçá da Chuva de Verão,
que pelo período de precipitação
traz a água tímida, curta, mas benfazeja;
quem sabe disséssemos do Cego,
que, perscrutando a escuridão perpétua,
constrói trilhas e corredores negros,
onde caminha, solitário e indefeso;
talvez pensássemos nos ventos,
que varrem o planeta em corrente perene, sem entenderem da poeira que ofusca os olhos da gente, sem perceberem os grãos da germinação.
Mas, não. Silêncio! Mudez de vozes e pensamento.
Não diremos nem destes, nem daqueles, tampouco dos mais reservados sentimentos.
Nuvens acinzentadas empanam os céus
e um engasgo profundo não nos permite usufruir a fluidez do ar.
Nada dança à nossa volta.
Notas ressoam, não feito música.
São apenas flébeis gemidos.
A poesia entristeceu. Na agonia da esperança, um poeta morreu. Um Poeta morreu...
Em seu féretro pobre, calado, caminha o Verso, seguido pela indecisão da Letra, pela mudez da Sílaba, pela surdez da Rima.
Lágrimas, apenas as da Inspiração,
quando no sumiço do viço
umedece a palidez da Musa,
que desacerta a direção,
que esquece o compromisso...
14 de dezembro de 2011
Tempo de dores
Tempo de dores
maria da graça almeidaLonge vai o tempo
do tempo das flores,
quando só os amores
traziam dores ao peito;
quando os espasmos do ventre
eram a fertilidade das damas;
as pontadas na cabeça,
resultado do pouco dormir;
as fisgadas nas costas,
inusitadas posições na cama.
Hoje pouco dizemos de flores,
bem mais nos queixamos de dores
que já não são bobagens;
são dores que nos levarão
a estranhas paragens.
Agora é o tempo
das feridas de verdade,
sob o espectro saudoso
da longínqua mocidade.
Saudade do tempo de ontem...
quando desfrutávamos
de nova embalagem;
quando dos supostos males,
às largas, inda ríamos;
quando éramos felizes...
e certamente o sabíamos.
11 de dezembro de 2011
"Mezzo" monorrrimo
"Mezzo" monorrrimo
maria da graça almeida
Vem da rua, vem do mato,
vem ligeiro, sem recato,
vem da vida, vem da vila,
vem da lida, vem sem laço,
varredura que bandida
põe em falso o meu passo.
Não tem eira, não tem beira,
não tem óculos, nem viseira,
volve o chão e traz poeira,
põe meu corpo em tremedeira,
aos meus olhos traz coceira,
aos ouvidos zumbe asneiras.
Vem segunda ou terça-feira,
vem depressa às carreiras,
fecha forte o portão,
bate firme a porteira,
vem sem braço e sem mão,nem dá mostra de canseira.
Gira a saia da mocinha,
meu cabelo desalinha,
rodopia, sobe e desce,
invisível se encaminha
nem em sombra aparece.
Tanto vento é um tormento,
mesmo quando chega lento.
o tal vento nem aguento,
vem de fora, vai pra dentro.
Mesmo quando chega lento,
atrapalha bons momentos,
desafia o meu intento
de cedinho ir pra rua,
de olhar de frente a lua
de quedar-me em casa nua...
1 de novembro de 2011
Beija-flor
Beija-flor
maria da graça almeida
Toda vez que comovido
bem de leve toca a flor
sai com o bico ferido,
retirando-se sem cor!
Desolada com a cena,
a Margarida com pena,
doce, pede ao passarinho,
que lhe dê o seu carinho.
A ave, voando em festa,
pressente do espinho a dor
e teimosa só empresta
beijos sempre à mesma flor!
Margarida com ciúme,
desprovida do perfume,
chora ao ver o bem amado
pela Rosa maltratado:
-Não tenho dela o olor,
porém, não possuo espinhos,
beije-me com muito amor,
eu não firo passarinhos!
- Flor miúda, graciosa,
meu martírio ora lhe digo,
eu jamais amei a Rosa,
amo apenas o perigo!
28 de outubro de 2011
Vegetação espontânea
Vegetação Espontânea
maria da graça almeidaInvejo a independência
da vegetação espontânea,
que escolhe nascer
onde melhor lhe aprouver.
Não é, milimetricamente, planejada,
nem, exaustivamente, controlada.
Vive por viver, sem cobranças,
como e quanto quiser.
Habita jardins naturais
sem canteiros convencionais,
tem o céu por regador
e o sol por cobertor... ou não.
Larga-se livre e solta,
sem estacas, sem escoras,
deita as folhas ao chão
ou alto vai, céu afora...
Cava o próprio alimento
sem mistura ou complemento,
floresce sem norma ou padrão
e se espalha, lindamente,
sem limite, sem patrão...
Maria da Graça Almeida
da antologia confraria dos poetas
À espera
Do livro Espelho
de maria da graça almeida
À espera
Tua sensibilidade crítica
é que me traz e instiga,
a investigar teus escombros!
Quero no teu interior,
com euforia ou dor,
revelar os teus sonhos
Larga-te às minhas investidas,
são curiosidades antigas,
que me ligam a ti.
Deixa que eu te penetre
e jamais te apresses
em despir-te de mim.
Vou conferir-te a fundo,
saber-te profundo,
num chegar e partir.
E quando fores embora
ficarei aqui fora,
esperando por ti!
Sei que sempre tu voltas
e bates à porta,
que eu vou abrir.
Eu te recebo sorrindo,
achando tão lindo,
voltares pra mim.
27 de outubro de 2011
O Sapo
maria da graça almeida
O sapo coaxa
na beira do rio.
O sapo com fome,
coitado, não dorme...
O sapo é modesto,
mas quer um tesouro,
tesouro pra sapo
é um grande besouro.
O sapo é guloso,
e sempre quer mais.
Um outro besouro?
Assim é demais!
A gula não é fome,
ter gula é feio,
agora não dorme
de papo tão cheio!
26 de outubro de 2011
Decreto de liberdade e amor
Decreto de liberdade e amor
maria da graça almeida
A livrá-lo do constrangimento,
pesar e da imposição,
meu amor, por ser imenso,
vem deixá-lo à vontade
para que encaminhe seus passos,
de acordo com a própria opção.
Em face do seu silêncio
e da minha solidão,
meu amor, por ser imenso,
aceita as sobras advindas
de um envolvimento
que talvez sobreviva
por força da minha intenção.
Meu amor, por ser imenso,
poderá manter-se recluso
para que não julgue intruso
o tom de minhas notas digitais
e ora o deixa liberto
para que se indigne diante
deste tolo decreto
que de vez expõe
a pieguice dos meus ais.
Meu amor, por ser imenso,
entende o quão difícil
é desempenhar certos papéis,
por isto não finja pressentir cheia
quando baixa estiver sua maré.
Meu amor, por ser imenso,
mudo de lamentos,
vibrará com a autenticidade
de sua fé.
Ainda que para seu conforto,
não mais proclame
este amor imenso, sólido,
insólito, intenso,
a chama viva que me habita
jamais se extinguirá.
Ah! este meu amor
sem bom senso,
desmedido, indefenso...
eternamente me acompanhará.
17 de outubro de 2011
Salgueiro chorão
Os faróis dos trens, ao chegar à cidade, incidiam sobre o salgueiro chorão,
que prateado soluçava, num espetáculo inesquecível de farta inquietação...
Desde o tempo de menina almejava em meu jardim o chorão ou a casuarina
Lindo é seu porte, belas as suas hastes, recheadas de folhas longilíneas , que lânguidas, femininas voltam-se ao chão, porém, a superstição inibiu-me a intenção. Associei-o à tragédia de meus amigos, precocemente expulsos da vida - ainda que o chorão não tivesse tido nenhuma participação, a não ser pelo balouçante espectro, que, no quintal, depois da partida dos moços em questão, altivo, subia, em sinistra exibição.
Implantou-me sua figura à memória e sobre mim cristalizou-se feito símbolo de tal história. Fato que não me permitiu concretizar o antigo desejo, ora adormecido. Em face de tal associação não cedi aos impulsos do plantio,
e, hoje em dia, a redimir-me da extrema covardia, resolvi escrever um inócuo poema cujo espécime uso agora como tema.
Salgueiro chorão
Maria da Graça Almeida
Na ilha da terra sofrida,
no fim do mundo e da vida,
humilde, olhando o chão,
triste gemia o chorão.
- Por quem choras, ó chorão,
este choro sem consolo?
Cá estou, à tua mão,
ofertando-te apoio!
- Este choro é bem antigo,
sufocado, reprimido,
pois de face para o chão,
não vejo da lua o clarão!
- Alegra-te, bom amigo,
não desprezes o que digo,
na água que te rodeia,
tão mais perto refletida,
terás linda a lua cheia!
(Quando o olho então já cego,
às visões da alma me entrego.
Aos reveses desta vida,
soluções alternativas.)
29 de setembro de 2011
Mulheres e árvores
maria da graça almeidaA roupa estava separada. Faltava escolher o cinto.
Optei pelo marrom. Antigo, porém continuava na moda, ela é assim, vai e volta! Ótimo!
Surpresa, ao tentar colocá-lo, notei-o extremamente pequeno. Fiquei a olhá-lo, a revirá-lo, boquiaberta! Será, diabos, que encolheu? Não, pelo que eu saiba, couro não encolhe. Concluí, entristecida, que minha cintura já não mais era a mesma.
Então, um dia eu tivera tal cinturinha? Mal podia crer. Era uma “coisiquinha”, um anel...
Ainda bem que quando a cabeça tem condições de raciocinar,
arranja-se um jeito de minorar as inquietudes...ou de fazê-las maiores, depende...
Para garantir-me a tranquilidade, resolvi refletir: somos como certas árvores! Nascemos feito simples folhinha. Aí, crescendo, temos o tronco delgado e flexível, para suportamos as quedas; as árvores têm-no para sobreviverem ao vento.
Tempo correndo... e vislumbramos o caule a engrossar; observamos nosso corpo a se avolumar. Mulheres e árvores, estruturas e destinos semelhantes.
Olho-me no espelho e ali, de repente me vejo refletida, tal qual árvore adulta. Dera sombra; dera frutos, que já deram os seus também. Tudo certo! Mulheres maduras, árvores maduras não mais envergam, seguem firmes, com galhos fortes, que, para o deleite de muitos e delas próprias, muitas vezes suportam a corda dos mais pesados balanços.
Valeu! Sem tristeza guardei o cinto, que, doravante, envolverá cinturas mais finas, as das meninas, frágeis árvores em desenvolvimento.
Agora, quando passo pelas ruas, facilmente reconheço no arvoredo as espécies ainda adolescentes e as, visivelmente, senhoras.
É a força da renovação, o poder da perpetuação. A vida é assim, para todos, faz parte da nossa natureza. Havemos de nos confomar.
23 de setembro de 2011
Poesia
Poesia
maria da graça almeidaDo suspiro fez-se a lenda
e da lenda, a fantasia,
que nasceu enluarada
e chamou-se Poesia.
De um ponto fez-se o conto,
de um canto, o acalanto,
de onde flui a sintonia
da mais doce melodia.
Da ausência fez-se o pranto
e da dor, a elegia,
onde o verso penitente
da clausura fez morada
e nessa entranha inclemente
soam rimas malfadadas.
28 de agosto de 2011
De repente
De repente
maria da graça almeida
De repente do fruto maduro,
a semente cola nas mãos,
de repente um grão distraído
enterra-se fundo no chão,
de repente a folha com vida
espia um cenário rasante,
de repente um galho mais alto
vislumbra o horizonte adiante,
de repente, o tal de repente
tornou-se de vez permanente
e com natural silhueta
de verde colore o planeta.
maria da graça almeida
De repente do fruto maduro,
a semente cola nas mãos,
de repente um grão distraído
enterra-se fundo no chão,
de repente a folha com vida
espia um cenário rasante,
de repente um galho mais alto
vislumbra o horizonte adiante,
de repente, o tal de repente
tornou-se de vez permanente
e com natural silhueta
de verde colore o planeta.
18 de agosto de 2011
Ao meu amor
Ao meu amor
Maria da Graça AlmeidaSem dúvidas, hoje eu sei
você, sim, é o meu rei,
ontem foi príncipe infante,
hoje é meu herói relevante!
Um homem de olhar menino,
meu tesouro masculino,
da lira, o tom maior,
das minhas metades, a melhor!
O dono do meu amor,
forte luz multicolor,
compõe a paixão no plural,
amaina meus vendavais!
Seu ser calmo e profundo
traduz a essência do mundo,
resgata com temperança,
minha alma criança.
Conquista-me de um certo jeito,
em versos mais que perfeitos.
Com gestos de pura doçura,
espalha magia e ternura!
Conferindo seu meigo rosto,
enquanto amiga e amante,
assumo tão alto posto,
serena e confiante!
Rogo que nossos destinos
caminhem sem desatinos,
trilhando as mesmas pegadas,
juntos e de mãos dadas.
E quando outra vez crianças,
cabeças pálidas, brancas,
que, frente a indícios de escombros,
um do outro tenhamos o ombro!
13 de agosto de 2011
Caneta vermelha
Caneta vermelha
maria da graça almeida
Não transmudem a poesia,
nem violentem os poemas,
o que vale é o que a alma desenha
com os pincéis do alumbramento.
Não dilacerem o dito
no afã do grito alheio.
Deitem o pensamento,
a percepção, os motivos,
de acordo com seus sentimentos.
Não se predisponham
aos óculos, às bengalas.
O dom caminha com boas pernas
e a arte nunca foi cega.
Afastem a caneta vermelha,
o que vale é o rito, a lenda,
o mito da autêntica entrega.
Sigam fiéis a seus versos,
não permitam que terceiros
alterem-lhes os manifestos,
dilatem ou os partam ao meio.
Somente a letra própria
oferece as pistas
de um momento pessoal
e da original intenção
do artista.
maria da graça almeida
Não transmudem a poesia,
nem violentem os poemas,
o que vale é o que a alma desenha
com os pincéis do alumbramento.
Não dilacerem o dito
no afã do grito alheio.
Deitem o pensamento,
a percepção, os motivos,
de acordo com seus sentimentos.
Não se predisponham
aos óculos, às bengalas.
O dom caminha com boas pernas
e a arte nunca foi cega.
Afastem a caneta vermelha,
o que vale é o rito, a lenda,
o mito da autêntica entrega.
Sigam fiéis a seus versos,
não permitam que terceiros
alterem-lhes os manifestos,
dilatem ou os partam ao meio.
Somente a letra própria
oferece as pistas
de um momento pessoal
e da original intenção
do artista.
12 de agosto de 2011
Descansa, poeta
Descansa, poeta
maria da graça almeidaDescansa, poeta,
a vida é uma festa!
a lua apontou!
Repousa com graça,
nos bancos das praças,
ninguém te ameaça,
a alegria raiou.
Sorri das belezas!
A vã incerteza,
o tempo levou.
O verso é grandeza,
A rima é certeza,
o poema, a nobreza
que alma ganhou.
Mas, quando, poeta,
um dia, sentido,
da cor, distraído,
o amor terminar,
levanta sem graça,
nos bancos da praça,
a dor vai chegar.
Aí, chora, poeta,
o amor que passou.
Ao fim dessa festa,
a flor definhou,
a rima é indigesta,
o verso não presta,
a Poesia acabou.
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