10 de abril de 2012

Confusão

Confusão
maria da graça almeida

 Ainda que tenham significados diversos, há quem, comumente, confunda: prepotência com liderança; arrogância com competência; persistência com teimosia; delicadeza com submissão; empreendedorismo com ganância; gentileza com fraqueza; precaução com medo; impetuosidade com coragem; comedimento com avareza; desperdício com generosidade; bondade com tolice; timidez com orgulho; extroversão com exibicionismo; carinho com compaixão; inveja com admiração; ódio com ciúme; permissividade com amor; insegurança com perfeccionismo; modéstia com incapacidade; limites com desamor; gula com fome; agressividade com autoridade. Há posturas que dificultam o discernimento até das pessoas ditas perspicazes e observadoras. Para diagnosticar tais características com melhor precisão não há de se olhar com os olhos da visão e sim com os da percepção.

8 de fevereiro de 2012

Aprender 

 maria da graça almeida
 
Anseio aprender coisas significantes, mas quero, primeiramente, descobrir o porquê de alguns acontecimentos, ainda que de irrelevantes aspectos.
Por que sempre me parece que: -o intervalo entre Segunda e Quinta é bem mais longo que o intervalo entre Terça e Sexta?
-a manhã voa e a tarde se arrasta? -o tempo passa mais velozmente depois que atingimos os quarenta anos?
-o último pedaço do biscoito sempre nos salta das mãos? - o final da casquinha do sorvete é o mais gostoso?
-muitas pessoas são reverenciadas só depois da morte?
-a ordem passa-nos despercebida e a desordem salta-nos aos olhos?
-há homens que, quando embriagados, tornam-se de uma generosidade infinita e prometem dar o que não têm?
-apenas nos sabemos felizes no tempo que já passou?
-a mulher de 40 é uma velha e o homem da mesma idade, um gato?
-no inverno não acreditamos que um dia usamos maiô e no verão, achamos absurdo um dia termos usado casacos de lã?
-o bom acaba logo e o ruim demora? -quando em viagem, a ida sempre é mais demorada que a volta, ainda que percorrendo o mesmo percurso? -os casais quando enquanto apaixonados não enxergam os defeitos do parceiro?
-os hábitos do companheiro tornam-se insuportáveis quando o amor decresce?
-acostumamo-nos à beleza das pessoas e dos objetos a tal ponto que chegará o dia em que
nos passará completamente despercebida?
-localizamos objetos cuidadosamente procurados apenas quando já desistimos de encontrá-los?
- a mulher esquece-se das dores do parto, assim que deseja ter outro filho?

1 de fevereiro de 2012

De quem falo?

De quem falo?
maria da graça almeida


Mesmo indiscreta, não me calo: entraram em férias!... Não, não, aposentaram-se ... Civilidade, Delicadeza, Cordialidade, Simpatia por onde andam hoje em dia? Talvez consideraram-se um desserviço, talvez optaram pelo sumiço, talvez entediadas se mudaram, talvez morreram por falta de exercício, talvez se encontram em estado vegetativo num arcaico livro de etiqueta, talvez exterminadas das velhas receitas de convivência social, talvez encarceradas num antigo diário de registro pessoal, talvez relegados à poeira de um sótão abandonado, ou na escuridão de um porão judiado ... Mesmo indiscreta, não me calo: entraram em férias! Não, não, aposentaram-se...

maria da graça almeida

29 de janeiro de 2012

A sociedade só cuida bem dos que, pela origem, já foram bem cuidados. Aqueles que por parte do sistema financeiro, do núcleo familiar e do grupo de amizade não receberam a merecida atenção, pela coletividade, serão desqualificados. 

 maria da graça almeida

20 de janeiro de 2012

Boca esperta


Boca esperta
maria da graça almeida

Fala, fala, fala,
maquininha de palavras,
fala, fala, fala,
a boquinha não se cala.
Ri-se, ri-se, ri-se,
ri, sorri por quase nada,
ri-se, ri-se, ri-se,
sem motivo, a risada.
Chora, chora, chora,
soluçando, escancarada,
chora, chora, chora,
de uma forma exagerada.
Fala, ri e chora,
dia todo, toda hora,
fala, ri e chora...
sempre pronta,
sem demora.
A boquinha abusada
da alternância é senhora.

4 de janeiro de 2012

De repente,


De repente
 maria da graça almeida



De repente,
insiro-me no desleixo visual
ou na improdutividade da apatia,
deixo o espelho falando sozinho
ou o tempo correndo na inércia
de um relógio franzino.

De repente,
os valores viram pó,
a vontade ata-se em nós,
os desejos quedam-se aniquilados
e as expectativas jazem
num papel amarfanhado.

De repente,
o terço, a bíblia e a fé
tornam-se ateus,
o espaço, a minha volta, cresce
e eu decresço, neste mundo,
pigmeu...

De repente,
na impossibilidade dos passos,
prendo- me em famigerados laços,
e a letargia
sufoca-me, dia a dia.

De repente,
o sim endurece,
o não recrudesce
e o talvez fita-me
com olhar indiferente.

De repente,
o nada torna-se infinito,
o tudo se faz restrito
e, para sempre, a paz
transmuda -se
em conflito.

21 de dezembro de 2011

Quiçá

Quiçá
maria da graça almeida
 

Quiçá falássemos da Rosa,
que pela efemeridade das pétalas
tem frágil a aparência e breve a elegância;
quiçá da Chuva de Verão,
que pelo período de precipitação
traz a água tímida, curta, mas benfazeja;
quem sabe disséssemos do Cego,
que, perscrutando a escuridão perpétua,
constrói trilhas e corredores negros,
onde caminha, solitário e indefeso;
talvez pensássemos nos ventos,
que varrem o planeta em corrente perene, sem entenderem da poeira que  ofusca os olhos da gente, sem perceberem os grãos da germinação.
Mas, não. Silêncio! Mudez de vozes e pensamento.
Não diremos nem destes, nem daqueles, tampouco dos mais reservados sentimentos.
Nuvens acinzentadas empanam os céus
e um engasgo profundo não nos permite usufruir a fluidez do ar.
Nada dança à nossa volta.
Notas ressoam, não feito música.
São apenas flébeis gemidos.
 
A poesia entristeceu. Na agonia da esperança, um poeta morreu. Um Poeta morreu...
Em seu féretro pobre, calado, caminha o Verso, seguido pela indecisão da Letra, pela mudez da Sílaba, pela surdez da Rima.
Lágrimas, apenas as da Inspiração,
quando no sumiço do viço
umedece a palidez da Musa,
que desacerta a direção,
que esquece o compromisso...

14 de dezembro de 2011

Tempo de dores

Tempo de dores

maria da graça almeida

Longe vai o tempo
do tempo das flores,
quando só os amores
traziam dores ao peito;
quando os espasmos do ventre
eram a fertilidade das damas;
as pontadas na cabeça,
resultado do pouco dormir;
as fisgadas nas costas,
inusitadas posições na cama.

Hoje pouco dizemos de flores,
bem mais nos queixamos de dores
que já não são bobagens;
são dores que nos levarão
a estranhas paragens.
Agora é o tempo
das feridas de verdade,
sob o espectro saudoso
da longínqua mocidade.

Saudade do tempo de ontem...
quando desfrutávamos
de nova embalagem;
quando dos supostos males,
às largas, inda ríamos;
quando éramos felizes...
e certamente o sabíamos.

11 de dezembro de 2011

"Mezzo" monorrrimo

"Mezzo" monorrrimo
maria da graça almeida


Vem da rua, vem do mato,
vem ligeiro, sem recato,
vem da vida, vem da vila,
vem da lida, vem sem laço,
varredura que bandida
põe em falso o meu passo.
Não tem eira, não tem beira,
não tem óculos, nem viseira,
volve o chão e traz poeira,
põe meu corpo em tremedeira,
aos meus olhos traz coceira,
aos ouvidos zumbe asneiras.

Vem segunda ou terça-feira,
vem depressa às carreiras,
fecha forte o portão,
bate firme a porteira,

vem sem braço e sem mão,
nem dá mostra de canseira.
Gira a saia da mocinha,
meu cabelo desalinha,
rodopia, sobe e desce,
invisível se encaminha
nem em sombra aparece.
Tanto vento é um tormento,
mesmo quando chega lento.
o tal vento nem aguento,
vem de fora, vai pra dentro.
Mesmo quando chega lento,
atrapalha bons momentos,
desafia o meu intento
de cedinho ir pra rua,
de olhar de frente a lua
de quedar-me em casa nua...

1 de novembro de 2011

Beija-flor


Beija-flor
maria da graça almeida

Toda vez que comovido
bem de leve toca a flor
sai com o bico ferido,
retirando-se sem cor!

Desolada com a cena,
a Margarida com pena,
doce, pede ao passarinho,
que lhe dê o seu carinho.

A ave, voando em festa,
pressente do espinho a dor
e teimosa só empresta
beijos sempre à mesma flor!

Margarida com ciúme,
desprovida do perfume,
chora ao ver o bem amado
pela Rosa maltratado:

-Não tenho dela o olor,
porém, não possuo espinhos,
beije-me com muito amor,
eu não firo passarinhos!

- Flor miúda, graciosa,
meu martírio ora lhe digo,
eu jamais amei a Rosa,
amo apenas o perigo!

28 de outubro de 2011

Vegetação espontânea


Vegetação Espontânea

maria da graça almeida

Invejo a independência
da vegetação espontânea,
que escolhe nascer
onde melhor lhe aprouver.
Não é, milimetricamente, planejada,
nem, exaustivamente, controlada.
Vive por viver, sem cobranças,
como e quanto quiser.
Habita jardins naturais
sem canteiros convencionais,
tem o céu por regador
e o sol por cobertor... ou não.
Larga-se livre e solta,
sem estacas, sem escoras,
deita as folhas ao chão
ou alto vai, céu afora...
Cava o próprio alimento
sem mistura ou complemento,
floresce sem norma ou padrão
e se espalha, lindamente,
sem limite, sem patrão...

Maria da Graça Almeida
da antologia confraria dos poetas

À espera







Do livro Espelho
de maria da graça almeida

À espera

Tua sensibilidade crítica
é que me traz e instiga,
a investigar teus escombros!

Quero no teu interior,
com euforia ou dor,
revelar os teus sonhos

Larga-te às minhas investidas,
são curiosidades antigas,
que me ligam a ti.

Deixa que eu te penetre
e jamais te apresses
em despir-te de mim.

Vou conferir-te a fundo,
saber-te profundo,
num chegar e partir.

E quando fores embora
ficarei aqui fora,
esperando por ti!

Sei que sempre tu voltas
e bates à porta,
que eu vou abrir.

Eu te recebo sorrindo,
achando tão lindo,
voltares pra mim.

27 de outubro de 2011




O Sapo
maria da graça almeida

O sapo coaxa
na beira do rio.
O sapo com fome,
coitado, não dorme...

O sapo é modesto,
mas quer um tesouro,
tesouro pra sapo
é um grande besouro.
O sapo é guloso,
e sempre quer mais.
Um outro besouro?
Assim é demais!
A gula não é fome,
ter gula é feio,
agora não dorme
de papo tão cheio!

26 de outubro de 2011

Decreto de liberdade e amor



Decreto de liberdade e amor
maria da graça almeida

A livrá-lo do constrangimento,
pesar e da imposição,
meu amor, por ser imenso,
vem deixá-lo à vontade
para que encaminhe seus passos,
de acordo com a própria opção.

Em face do seu silêncio
e da minha solidão,
meu amor, por ser imenso,
aceita as sobras advindas
de um envolvimento
que talvez sobreviva
por força da minha intenção.

Meu amor, por ser imenso,
poderá manter-se recluso
para que não julgue intruso
o tom de minhas notas digitais
e ora o deixa liberto
para que se indigne diante
deste tolo decreto
que de vez expõe
a pieguice dos meus ais.

Meu amor, por ser imenso,
entende o quão difícil
é desempenhar certos papéis,
por isto não finja pressentir cheia
quando baixa estiver sua maré.
Meu amor, por ser imenso,
mudo de lamentos,
vibrará com a autenticidade
de sua fé.

Ainda que para seu conforto,
não mais proclame
este amor imenso, sólido,
insólito, intenso,
a chama viva que me habita
jamais se extinguirá.
Ah! este meu amor
sem bom senso,
desmedido, indefenso...
eternamente me acompanhará.

17 de outubro de 2011

Salgueiro chorão




Os faróis dos trens, ao chegar à cidade, incidiam sobre o salgueiro chorão,
que prateado soluçava, num espetáculo inesquecível de farta inquietação...
Desde o tempo de menina almejava em meu jardim o chorão ou a casuarina
Lindo é seu porte, belas as suas hastes, recheadas de folhas longilíneas , que lânguidas, femininas voltam-se ao chão, porém, a superstição inibiu-me a intenção. Associei-o à tragédia de meus amigos, precocemente expulsos da vida - ainda que o chorão não tivesse tido nenhuma participação, a não ser pelo balouçante espectro, que, no quintal, depois da partida dos moços em questão, altivo, subia, em sinistra exibição.
Implantou-me sua figura à memória e sobre mim cristalizou-se feito símbolo de tal história. Fato que não me permitiu concretizar o antigo desejo, ora adormecido. Em face de tal associação não cedi aos impulsos do plantio,
e, hoje em dia, a redimir-me da extrema covardia, resolvi escrever um inócuo poema cujo espécime uso agora como tema.

Salgueiro chorão
Maria da Graça Almeida

Na ilha da terra sofrida,
no fim do mundo e da vida,
humilde, olhando o chão,
triste gemia o chorão.

- Por quem choras, ó chorão,
este choro sem consolo?
Cá estou, à tua mão,
ofertando-te apoio!

- Este choro é bem antigo,
sufocado, reprimido,
pois de face para o chão,
não vejo da lua o clarão!

- Alegra-te, bom amigo,
não desprezes o que digo,
na água que te rodeia,
tão mais perto refletida,
terás linda a lua cheia!

(Quando o olho então já cego,
às visões da alma me entrego.
Aos reveses desta vida,
soluções alternativas.)

29 de setembro de 2011




Mulheres e árvores

maria da graça almeida

A roupa estava separada. Faltava escolher o cinto.
Optei pelo marrom. Antigo, porém continuava na moda, ela é assim, vai e volta! Ótimo!
Surpresa, ao tentar colocá-lo, notei-o extremamente pequeno. Fiquei a olhá-lo, a revirá-lo, boquiaberta! Será, diabos, que encolheu? Não, pelo que eu saiba, couro não encolhe. Concluí, entristecida, que minha cintura já não mais era a mesma.
Então, um dia eu tivera tal cinturinha? Mal podia crer. Era uma “coisiquinha”, um anel...

Ainda bem que quando a cabeça tem condições de raciocinar,
arranja-se um jeito de minorar as inquietudes...ou de fazê-las maiores, depende...
Para garantir-me a tranquilidade, resolvi refletir: somos como certas árvores! Nascemos feito simples folhinha. Aí, crescendo, temos o tronco delgado e flexível, para suportamos as quedas; as árvores têm-no para sobreviverem ao vento.
Tempo correndo... e vislumbramos o caule a engrossar; observamos nosso corpo a se avolumar. Mulheres e árvores, estruturas e destinos semelhantes.
Olho-me no espelho e ali, de repente me vejo refletida, tal qual árvore adulta. Dera sombra; dera frutos, que já deram os seus também. Tudo certo! Mulheres maduras, árvores maduras não mais envergam, seguem firmes, com galhos fortes, que, para o deleite de muitos e delas próprias, muitas vezes suportam a corda dos mais pesados balanços.

Valeu! Sem tristeza guardei o cinto, que, doravante, envolverá cinturas mais finas, as das meninas, frágeis árvores em desenvolvimento.

Agora, quando passo pelas ruas, facilmente reconheço no arvoredo as espécies ainda adolescentes e as, visivelmente, senhoras.
É a força da renovação, o poder da perpetuação. A vida é assim, para todos, faz parte da nossa natureza. Havemos de nos confomar.

23 de setembro de 2011

Poesia

Poesia

maria da graça almeida

Do suspiro fez-se a lenda
e da lenda, a fantasia,
que nasceu enluarada
e chamou-se Poesia.
De um ponto fez-se o conto,
de um canto, o acalanto,
de onde flui a sintonia
da mais doce melodia.
Da ausência fez-se o pranto
e da dor, a elegia,
onde o verso penitente
da clausura fez morada
e nessa entranha inclemente
soam rimas malfadadas.

28 de agosto de 2011

De repente

De repente
maria da graça almeida

De repente do fruto maduro,
a semente cola nas mãos,
de repente um grão distraído
enterra-se fundo no chão,
de repente a folha com vida
espia um cenário rasante,
de repente um galho mais alto
vislumbra o horizonte adiante,
de repente, o tal de repente
tornou-se de vez permanente
e com natural silhueta
de verde colore o planeta.

18 de agosto de 2011

Ao meu amor



Ao meu amor

Maria da Graça Almeida

Sem dúvidas, hoje eu sei
você, sim, é o meu rei,
ontem foi príncipe infante,
hoje é meu herói relevante!

Um homem de olhar menino,
meu tesouro masculino,
da lira, o tom maior,
das minhas metades, a melhor!

O dono do meu amor,
forte luz multicolor,
compõe a paixão no plural,
amaina meus vendavais!

Seu ser calmo e profundo
traduz a essência do mundo,
resgata com temperança,
minha alma criança.

Conquista-me de um certo jeito,
em versos mais que perfeitos.
Com gestos de pura doçura,
espalha magia e ternura!

Conferindo seu meigo rosto,
enquanto amiga e amante,
assumo tão alto posto,
serena e confiante!

Rogo que nossos destinos
caminhem sem desatinos,
trilhando as mesmas pegadas,
juntos e de mãos dadas.

E quando outra vez crianças,
cabeças pálidas, brancas,
que, frente a indícios de escombros,
um do outro tenhamos o ombro!

13 de agosto de 2011

Caneta vermelha

Caneta vermelha
maria da graça almeida

Não transmudem a poesia,
nem violentem os poemas,
o que vale é o que a alma desenha
com os pincéis do alumbramento.
Não dilacerem o dito
no afã do grito alheio.
Deitem o pensamento,
a percepção, os motivos,
de acordo com seus sentimentos.
Não se predisponham
aos óculos, às bengalas.
O dom caminha com boas pernas
e a arte nunca foi cega.
Afastem a caneta vermelha,
o que vale é o rito, a lenda,
o mito da autêntica entrega.
Sigam fiéis a seus versos,
não permitam que terceiros
alterem-lhes os manifestos,
dilatem ou os partam ao meio.
Somente a letra própria
oferece as pistas
de um momento pessoal
e da original intenção
do artista.

12 de agosto de 2011

Descansa, poeta

Descansa, poeta

maria da graça almeida

Descansa, poeta,
a vida é uma festa!
a lua apontou!
Repousa com graça,
nos bancos das praças,
ninguém te ameaça,
a alegria raiou.

Sorri das belezas!
A vã incerteza,
o tempo levou.
O verso é grandeza,
A rima é certeza,
o poema, a nobreza
que alma ganhou.

Mas, quando, poeta,
um dia, sentido,
da cor, distraído,
o amor terminar,
levanta sem graça,
nos bancos da praça,
a dor vai chegar.

Aí, chora, poeta,
o amor que passou.
Ao fim dessa festa,
a flor definhou,
a rima é indigesta,
o verso não presta,
a Poesia acabou.

31 de julho de 2011

Reversão

Reversão
Maria da Graça Almeida

Para muitos o envelhecimento é sinônimo de sofrimento, principalmente para as mulheres, mais ainda para as vaidosas.
Ainda que se surpreendam, digo que o incômodo que nos traz a metamorfose imposta pelo tempo é passível de conserto.
Não a metamorfose, propriamente, mas sua aceitação.
Não acreditam? Posso esclarecer.
Se não podemos lutar contra a ancianidade, por que não nos aliarmos a elas?
Parece complicado? Não é!
Parece impossível? Também não.
Então como isso se daria? Facilmente!
Em vez de temê-la, que a esperemos com ansiedade. Que revertamos os valores e os padrões de beleza
e transformaremos os danos da velhice em bens preciosos.
Imaginem que felicidade se assumíssemos a postura de enxergar o declínio da juventude como um fator de exuberância e esplendor.
Imaginem que estimulantes as conversa e as observações fluindo desta maneira:
Ester engordou, está cheia de pneus, uma maravilha, vou pedir-lhe o endereço do médico que a está tratando.
Marina adquiriu as desejadas celulites, foram tantos tratamentos, mas agora conseguiu obtê-las. Anda feliz da vida!
Não vejo a hora de ficar com os peitos iguais da Amelinha. Quase alcançam o umbigo! Uma perfeição.
Ivete já voltou da Europa. Fez plástica por lá, com um ótimo cirurgião. Está com o rosto plissadinho! Maravilhosa, quase não a reconheci.
Magnólia, enfim, conseguiu ter o couro cabeludo à mostra! Anda radiante. Só não conta o segredo do que passou nos cabelos para caírem tão rapidamente.
Ingrid até que enfim pode usar regatas, seus braços exibem uma flacidez invejável.
As orelhas da Maria Alice, magníficas, cresceram tanto que ela nem mais precisa usar brincos. Eram tão acanhadinhas, as coitadas!
Clementina, logo mais, fará plástica no nariz, Disse-me que ele está ainda muito pequeno
e, irritantemente, arrebitado. Quer aumentá-lo e envergá-lo o máximo possível.
Os cotovelos da Melina estão pregueadinhos, não sei como os conseguiu tão graciosos!
E as mãos de Maitê! Nossa, não tem pra ninguém, nunca vi outras feito as delas, já estão
lindamente vincadas, logo mais estarão plenamente amassadas.
Da Idalina, o pescoço e o colo, juro, perfeitos, impecáveis! Não mais mostram aquela pele lisa, esticada, horrorosa.
Que sorte deste pessoal! Envelheceu precocemente. Um dia ainda chegarei lá!

E então? Não é uma ótima saída?
Bem, e isso é tudo, ou quase...

Senhores e senhoras formadores de opinião, abracem esta causa, afinal , um dia também sofrerão com desmandos
do tempo e com a força da mão da gravidade.
Que os valorizemos com fervor.

Obs.: Tomei o cuidado de não colocar nome de ninguém da minha família,
nem das minhas amigas, senão...ai, ai, ai....

26 de julho de 2011

Opostos

maria da graça almeida



Do solicitante,

o tempo é ansioso.

Do solicitado, moroso .



Os tempos diferem,

as metas são desiguais.

Os caminhos, opostos.

Um segue a trilha da aflição,

o outro, o rumo do enfado .


Do solicitante, a ansiedade

usa os andrajos da humilhação,

as vestes rotas da humildade.


Do solicitado, a disponibilidade

exibe a coroa do descaso

e o cetro da superioridade
Carência

maria da graça almeida



Secura de mim.

Vazo de um vaso trincado,

sem a querença, sem a crença

e a certeza do amanhã.

Vida que vadia resfolega

sob o relógio que se arrasta

entre a solidão matinal

e a noite fria...ermitã.

24 de julho de 2011

Quelelê- O jurássico Vós

Quelelê
maria da graça almeida

Ai, Senhora das boas línguas,
rogai por eles, os fuxiqueiros,
não permitais que o mundo inteiro,
de petas, calúnias e injúrias,
transforme-se em vasto celeiro.

Ai, donas das línguas felinas
não deixeis que vossas bocas ferinas
levantem falsos testemunhos,
assinando de próprio punho
a maledicência feminina.

Ai, mulheres da língua limosa,
calai os lábios infecundos.
Que apenas as falas zelosas
traduzam o âmago do homem
e cuidem da alma do mundo.

20 de julho de 2011

João,

eis que me ponho descontraída,
sentada à mesa, com a marca Brahma,
em grandes letras, cotovelos apoiados, displicente,
esquecida da etiqueta, ouvindo sem ser ouvida,
vendo sem ser vista, da timidez distraída,
embriagada da presença de meus ídolos,
quando neles descubro uns mitos tão homens
e uns homens mais mitos.
Quantas vezes desejei, tal qual sorrateira mosca,
pousar, não na sopa do Raul, mas nos mais inusitados
e inacessíveis lugares, onde, invisível ao espetáculo,
ainda que cotidiano, repousasse por prazer, gosto e vontade,
sem proibição,reserva ou punição.
E, hoje, sem metamorfose, nem deslocamento físico,
finalmente, aterrissei! Você conseguiu o milagre!
Lendo Toquinho, conheci mais Vinícius,
ficamos amigos, lendo Vinícius,
descobri mais Toquinho e mais Toquinhos,
somos parceiros, ainda que nem saibam
ou, desconfiem!
Participar de tão milionários mundos interiores,
sem a preocupação de ser inconveniente,
sem o temor de importunar, preservando-lhes a privacidade
e o direito de comumente viver,
traz-me a confortável sensação do respeito pelo espaço alheio
e a peculiar serenidade do bom senso.
E você, heim, João! Como diz bem!
Que saborosa fluência! Quão envolvente é sua palavra!
Em proseando, poeticamente desvenda intensos mistérios,
com os quais ludibriamos o tempo, desprezamos as distâncias
e, vibrantes,arremetemo-nos de corpo,cabeça e sentimento
a momentos e lugares singulares e especiais.
Obrigada, João Pecci, por despi-los de uma forma
surpreendentemente clara e bela e sublime.


Um grande abraço, cheio de admiração!
Jamais emudeça. Continue dizendo...
sempre...

Maria da Graça Almeida
Atraso

Maria da Graça Almeida

Conheci minha mãe,
então, mãe de cinco filhos!
Conheci-a já cheinha
de corpo e preocupação.
Não sei se fui bem-vinda,
às vezes penso que não!
Já lhe pesava a idade
e uma barriga a mais,
numa idade avançada,
ainda pesa tão mais!
E assim mesmo apareci,
mesmo sem ser convidada,
mesmo sem prévio aviso,
mesmo sem hora marcada!
- Ô mãe, desculpe
minha visita inesperada!
Quando já queria repousar,
desnudando a idade;
quando, calada, retratava
só a doce santidade;
quando a pálida boca
não mais tinha vaidades,
chego eu distraída, atrevida,
toda em bronquite,
e outros itens em ite,
que a obrigaram
na madrugadas sombrias,
nas noites quentes ou frias,
a caminhar pela casa comigo
no colo envelhecido,
colo que mais merecia,
num bom leito, relaxar;
colo com missão cumprida,
de vida, enfim, resolvida
prontinho pra descansar...
- Ô mãe, quantos anos eu lhe devo?
Imagino... mas ainda assim me atrevo,
nestes versos, a indagar!
Ô mãe, de anos e anos já muitos,
de tempos de alto custo,
quase a mato de amor,
depois de matá-la de susto!

Maria da Graça Almeida