31 de maio de 2011

Formigas

Formigas
maria da graça almeida

Acomodo minha indolência
na cadeira preguiçosa
e o máximo que me deixo fazer
é estirar braços e pernas
na exata medida
de uma manhã desprovida
do acontecer.
Enquanto isso,
flagro as formigas
que, no silêncio
das filas em "ziguezague",
atrevem-se.
O bolo amanteigado de ontem
amanheceu sardento.
Centenas delas desbravam-no.
Roubam-me, as descaradas.
Movimentam-me o olhar
no movimento da marcha em retirada.
O que antes era bloco imóvel e único,
agora caminha multiplicado.
Adocicados fragmentos,
entremeados, passeiam nas
patinhas gulosas
das formigas “tarefeiras”.

29 de maio de 2011

Livre

Livre
maria da graça almeida

Traga sempre na lembrança:
desprezo receitas,fórmulas,
desde minha tenra infância,
repudio regras, normas.
Abomino as cobranças
e tampouco as reconheço.
Ao jugo e à intemperança,
juro, não me submeto.
Quem me desejar cativa,
que abuse da sedução,
o limite que dela deriva
respeito com mansidão.

14 de maio de 2011

Celebridade

A juventude sente a falta de ídolos.Ou a juventude anda sem condições de reconhecer um ídolo verdadeiro. Motivo este que faz com que os personagens que despontem na mídia, mesmo sem marcar sua aparição com atos e feitos relevantes, mereçam admiração e a atenção dos jovens-...bem, só deles não, dos ditos experientes também.
Há uma corrida desenfreada em busca dos ”famosos" numa fabricação enganosa de talentos,na canonização de falsos santos, na veneração de pseudo-deuses.
Para ser celebridade hoje basta a carinha estampada na tela por algum tempo; celebridade não é mais o que os dicionários definem: reputação ilustre e estabelecida, notabilidade, renome.
Houve uma total distorção dos valores, não sei se por conta da precariedade de informações da população ou se da real escassez de celebridades vivas.
Perguntem às pessoas quais os seus ídolos. Aposto que ficarão decepcionados com as repostas e começarão a entreter-se com o mesmo questionamento que tenho agora: quais seriam as verdadeiras celebridades atuais? Creio que não conseguiríamos relacioná-las nem apenas nos dedos da mão esquerda.
Que prevaleçam, então, a admiração pelos nossos mortos célebres. Que a eles se voltem as nossas lembranças.
Glória aos imortais! Salve, salve!

13 de maio de 2011

A banda

A banda
maria da graça almeida

No lombo do vento,
nos ombros da chuva,
espero desnuda
a banda passar.

Retomo o assento
no colo do tempo,
aguardo, sem par,
a banda passar.

A vida sem graça,
que cedo espio
da velha vidraça,
não enche vazios.

Nas vilas da vida,
a banda não passa.
No mundo de Deus,
quem passa sou eu.

11 de maio de 2011

De mim para mim

De mim para mim
maria da graça almeida

Esta é uma homenagem singular.
É homenagem que eu mesma me propus a prestar-me, posto que a considero justa e devida.
É homenagem do meu eu pessoa, para o meu eu mãe.
Gostaria que outras mães fizessem o mesmo, se, realmente, julgassem -se
merecedoras. Em paz eu ficaria se merecedoras todas o fossem.
Homenageio-me hoje, não movida pela comemoração convencional da data,
homenageio-me, sim, por ter sido uma mãe prudente e cumpridora dos deveres.
A calma habita minha alma...Cuidei, orientei, formei, informei. Acompanhei todas as fases da vida de minhas filhas,das mais amenas às mais conturbadas, com olhos atentos, com ouvidos aguçados.
Não descuidei de seus sentimentos, não me poupei ao envolver-me em seus sonhos, em suas frustrações e expectativas.
Mantive-me vigilante e presente, usei o Não sempre como forma de proteção, de carinho.
Dentro da minhas possibilidades, observei-lhes as necessidades físicas emocionais, respeitei-lhes as diferenças sem compará-las, sem confrontá-las, agindo com a justiça dos meus princípios morais e do meu conceito humanitário.
Não desconsiderei seus desencantos, nem desvalorizei suas conquistas.
Estive pronta para atuar em todas as situações que demandassem energia e pulso firme, assim como nas em que a delicadeza e compreensão fizeram-se prementes.
Por isso, hoje, imodesta, dou-me o direito de parabenizar-me e estendo tal felicitação às mães que, a despeito das dificuldades, dignamente, assumiram seu papel, papel este que só se aprende nos livros da intuição e na escola do amor.
Desejo-me, ainda, que, durante meu tempo de permanência junto às minhas filhas, não cometa nenhum deslize, que lhes comprometa a saúde física, mental e a felicidade, bem como o orgulho que, estou certa, elas sentem pela mãe, que bem desempenhou sua missão.
Desejo, ainda, que elas também, um dia, julguem-se no direito da auto-homenagem, pois assim, mais do que nunca, revalidarei as verdades da mensagem, a que ora me destino...

11 de abril de 2011

Massacre

Massacre
maria da graça almeida

Com sofreguidão e sem pena,
num dia parido sem paz,
o delírio escreveu vil poema,
que imêmore não será...Jamais!
O coração está cheio de vazio
e o peito de vazio ficou cheio.
A insanidade com insensatos fios
ceifou belos sonhos ao meio.
O cemitério inflou-se de túmulos
ao sepultar jovens alunos,
agora no luto que é múltiplo
o pesar dilatou o seu turno.
A sombra da abjeta solidão
vagueia entre carteiras solitárias,
o desvario com maligna mão
arrancou inocentes da área.

8 de fevereiro de 2011

Sem conserto

Sem conserto!
maria da graça almeida

O bom e simples Vicente,
encontrando um amigo recente,
convidou-o à mesa de um bar
e puseram-se a conversar.
Entre goles mais além
e do povo o vaivém,
dos filhos contavam os feitos,
gabando-os lindos, perfeitos.

De repente na calçada,
franzinas, acanhadas,
surgiram três moças na praça,
andando com pressa, sem graça!

Vicente, assim que as notou,
ao amigo observou:
- Bem feia é a moça do canto,
causa-me, até, certo espanto!
- Sinto muito, amigo Vicente,
por sua pouca mesura,
mas aquela moça do canto
é Ana, a minha caçula!
- O amigo não entendeu,
não é a daquele canto,
falo é da moça ao lado,
a que tem o xale franjado.
- A moça quem se refere
e em quem seu veneno desfere,
tão somente é minha mulher
e não uma outra qualquer!
- Creio que mal me expliquei,
não são as das laterais,
refiro-me à que está no meio.
Desta, sim, o rosto é feio!
- A moça que está no meio,
de quem, sem delicadeza,
você diz do rosto feio,
é minha filha, a Tereza!

E pra terminar a história,
Vicente resolve ir embora,
dizendo com muito respeito,
antes do pé para fora:
- Desculpe-me, caro amigo,
por minha rude maneira,
mas nem lhe posso dizer,
que foi mera brincadeira.
Mais honesto é admitir-me
enredado numa teia,
já que a família inteira,
não tem jeito...é muito feia!

15 de janeiro de 2011

Cordilheira

Cordilheira
Escrito por maria da graça almeida
Qua, 20 de Agosto de 2008 05:45
No Chile há muitos poetas. Não conseguia, eu, compreender o motivo de tal concentração, até quando, num hotel de Santiago, onde a janela abria-se despudoradamente para a magnitude das Cordilheiras, entendi! Envolvida por certa magia e estranha fantasia, consegui descobrir no perene espetáculo a abundância da fonte de onde flui a inspiração do chileno. Aí não tive saída, vigiando minha respiração, que já pressentia ofegante, larguei-me a escrever, olhando pela janela como se mirasse um quadro revelador das fronteiras do alumbramento e do limiar da alucinação.
Maria da Graça Almeida

Cordilheira
Maria da Graça Almeida

"Pós sinto" as pegadas dos deuses latinos,
pousando os pés divinos
sobre terras elevadas,
virgens meninas despenteadas.
Se uns o fizeram sutilmente,
outros calcaram de forma tal o chão,
que o viram, entre um passo e outro,
subir em altos picos, em duros bicos.

Meus olhos vagam pelo espaço alongado, recortado, sinuoso...
Galgam íngremes montanhas e, vertiginosamente,
despencam em quedas livres e fatais.
Depois, dão-se a escorregar e deslizar em pisos lisos,ou a rastejar, arranhando-se na aspereza da textura visual.

Quando, dos anjos meninos, o sopro cálido
derreter o frio espesso e alvo que se moverá,
graciosamente, sobre a austeridade do marrom,
meu ser todo frágil, tolo e perplexo,
suspirará ante o imensurável espetáculo
do perpétuo bolo achocolatado,
coberto por um branco e absurdo glacê,
que lindamente escorrerá desenhos
abstratos e fantásticos, jamais
consumidos por simples mortais.

Às vezes os Deuses sabem ser cruéis!
Muitos deles zombam da impotência dos homens.
Outros lhes testam o tamanho do conformismo.
Nem tudo o que fartamente lhes expõem aos olhos,
facilmente lhes dispõem às mãos.

12 de janeiro de 2011

O vento

O vento
maria da graça almeida

O vento chega-me à porta,
rodopia, vai e volta.
Entra sem ser convidado,
vem sozinho, sem escolta.
Desalinha-me os cabelos,
embaralha meus papéis,
sopra sobre os travesseiros
leva ao chão os meus anéis
Incomoda meu descanso,
assobia sem balanço.
E eu lhe peço nessa hora:
- Não quer ir ventar lá fora?
E o vento assanhado
diz sorrindo, bem a gosto:
- Pra sair sou obrigado
a ventar sobre seu rosto.

maria da graça almeida

Cenário bucólico

Cenário bucólico
maria da graça almeida

Doce de leite, abóbora e coco,
beijo roubado da boca do moço,
rede estirada ao sol de relance,
livro da vida esquecido na estante.

Vento ventando cantigas de amor,
crista do galo empanada na cor,
lenha a estalar no tosco fogão,
cheiro gostoso de sopa e feijão.

Bicho que pica, coceira que vem,
tarde chegando no apito do trem...
Sapo coaxa sem graça, arredio,
garça se mira nas águas do rio.

Égua que trota levanta a poeira,
homem, voltando, traz pó na canseira.
Dona a acenar na porta da casa,
ave se assusta e apressa as asas.

Filho que chora, chupeta no chão,
pão ressequido na palma da mão.
Riscos no céu, a paisagem se turva,
luz que se apaga é indício de chuva.

Cruz na janela, uma vela acesa,
prato trincado faz mais pobre a mesa.
A sopa e o feijão da pouca tigela,
não chegam à gata, não há para ela!

Sono batendo, um sopro à chama,
corpo cansado impõe peso à cama.
Sonho do homem inda é colorido,
mesmo com fome, outro filho é bem-vindo.

Maria da Graça Almeida
Da antologia da Confraria dos Poetas
Poesia com manteiga
maria da graça almeida

Prometeu-me ambrosias,
Literata, a cozinheira,
pelo gosto da estréia,
cheguei presta e faceira.

Só vi versos com geléia
e poesia com manteiga,
certas rimas lambuzadas,
emborcadas sobre a teiga.
Pus-me tonta e enjoada
da poesia e da manteiga.

No almoço, em contraponto,
terei letras de grandeza.
Um gostoso miniconto
será minha sobremesa.
Torço pra que Literata
desta vez não erre a mão
ou provarei pela errata
o sabor da indigestão.

7 de dezembro de 2010

Antes e depois

Antes e depois
maria da graça almeida


O antes, do derredor, é a influência;
o depois é o que sobra da essência.

O antes, do caso, é a antecipação;
o depois é o caso consumado.
O antes e o depois, da moeda, são os lados.

O antes, do fato, é pura ausência;
o depois é mera consequência.

O antes, da ocorrência, é o pressuposto;
o depois é tudo o que permanece no gosto.

O antes tão só é a efervescência,
pese-o bem, para que, no depois,
não lhe pese a consciência.

Preciso dizer

Preciso dizer
maria da graça almeida


Não retenha ou represe

os ditos em minha garganta,

nem no peito os meus soluços;

a tranca é um corte no pulso;

a mudez é poço vazio;

a chave, o jazigo mais frio.


Não me aprisione as letras,

nem me esconda o dicionário,

o dizer não possui cadeado,

o sentir já é nó desatado.


Não me ameace o verso

com espinhos ocultos,

a dor é um grão submerso

nos mares dos velhos insultos.


Não me provoque com suas loucuras,

hoje, finjo crer em falsas procuras

e só as desarmo com simples ternura,

posto que a poesia é a figura,

que impune inda flutua

nas amargosas águas

das doces amarguras.


Não queira que me mova

tão só entre seus pontos,

que repinte seus traços,

que reconte seus contos.

Meu rumo é um desaponto?

Cada qual pisa os passos

com largueza, sem percalços.


Deixe que, livre, fotografe

com a lente que mesma eu puser,

responderei pelo mal, se um dia o fizer,

pois que ninguém jamais conduzirá a brisa

que, brejeira, bailando vem,

nem a bobice do vento mais forte

que só leva a poeira aos olhos de alguém.

8 de novembro de 2010

Arte

Criada por mentes brilhantes, a arte é uma mentira na qual todos, ou quase todos, acreditam.
O que vemos não existe na realidade, tudo é extraído do cérebro privilegiado do artista.
Facilmente confundimos o artista com sua criação ou vice-versa. É quando o criador e a arte que ele personifica fundem-se, tornando-se única forma, único ser, ainda que ilusórios.
Mesmo utilizando um modelo inspiratório, o artista o reproduz por meio de sua fantasia ou da maneira própria de reconhecê-lo, ainda que visionária.
As idéias utopistas, quiméricas não podem nascer de um cérebro comum ou de um que foi trabalhado para enxergar as coisas como realmente se apresentam, sem acrescentar sua inventividade.

Outro dia fiquei perplexa quando disse a uma criança:
-Sente -se aqui comigo , vamos pilotar este avião .
E ela admirada me respondeu:
-Isto não é um avião, é uma cadeira.
Aos pais e aos professores, cabem os cuidados de oportunizarem à criança situações em que possa fluir a criatividade, respeitando, considerando-a e, o mais importante, não coibindo sua ação.

28 de outubro de 2010

Desabafinho
maria da graça almeida

A máxima que diz: vivendo
e aprendendo é verdadeira .
Mais verdadeira ainda é a :
vivendo e conhecendo-se.
Nunca me imaginei
numa situação
de confronto
declaradamente "bélico".
Aconteceu!
Não me vali dos palavrões
do mundo,
que conheço e evito,
mas abusei dos termos:
mentiroso, vagabundo...
Então, descobri que
minha educação,
feliz ou infelizmente,
apenas respeita os limites
da minha indignação.

13 de outubro de 2010

Poema bobinho

Poema bobinho.
maria da graça almeida

Os dias passam depressa,
as noites espalham negror,
na madrugada funesta,
despediu-se meu amor.
Tudo ficou tão sem graça,
da vida, esvaiu-se a cor,
os canteiros lá da praça
desbotaram, não têm flor.
O pinho emudeceu,
a nota desafinou,
o dia adormeceu,
o mundo já se acabou.

Tempo... tempo...tempo,
hora, tarde, noite e dia,
a dor, em movimento,
vestiu nova fantasia...

Tudo começa a ter graça,
a alegria sublima as cores,
as floreiras lá da praça
parecem-me cheias de flores.
Os dias desfilam sorrindo,
as noites espalham rumores,
o amor que me vem surgindo
substituiu velhas dores.
O pinho soltou sua voz,
as notas mudaram de tom,
o afeto não é um algoz,
amar de novo é bom!

26 de agosto de 2010

Poema da Volta



Poema da Volta
Maria da Graça Almeida

O trem a balançar me levava,
seguindo a quente manhã,
eu carregava na bolsa
biscoitos e uma maçã.

As casas corriam lá fora,
também o campo e a flor,
tudo era verde no campo,
tudo na flor era cor!

E assim correndo comigo
nem ao menos olhavam o trem,
atordoados, sentindo
o balanço do vaivém.

Trens que seguem ao norte,
trens que rumam ao sul,
uns em preto e prata,
outros pintados de azul.

A viagem fazia-se longa,
eu já um tanto enjoada,
ouvia do trem o apito,
soando-me feito um grito!

E o trem resfolegante se ia...
Na paisagem o olhar eu perdia.
Meus pés com certo inchaço
mostravam um ser em cansaço!

Finalmente adormeci.
Foi sono férreo, profundo,
mas ouço a voz que me chama:
- Moça, já é Pindorama!

Acordei assustada, eu juro!
Era tarde, fazia-se escuro.
Tão grata fiquei nessa hora,
por não me chamarem: senhora!

É que ao deixar a cidade,
era jovem e saí sem vontade...
Agora, voltando senhora,
de volta tenho a mocidade!

Por isso chamada de moça,
pelo guarda do trem que sorria,
digo ainda que estranho lhe soe:
- Seu guarda, que Deus o abençoe!

31 de julho de 2010

Revelação



Revelação
maria da graça almeida


Se desta vida fores primeiro,
nada haverei de fazer.
Emudecida , seguirei teu féretro
e em teu ataúde colocarei a mais bela flor,
que um dia por aqui inda irá aparecer.

Duas gotas cairão e eu nem as disfarçarei.
Não mais precisarei esconder
os males que em vida de ti recebi .
Não porque tu quiseste,
mas porque eu consenti.

Porém, se eu partir primeiro,
ah, aí sim bem saberás o quanto te amei
e os mares que por ti deitei.

Saberás das noites insones
em que louca perambulei,
provando com dor
migalhas do amor.

Verás o tamanho da adaga
que me feriu o coração,
ao saber-te em súbita
e definitiva união.

Tocarás meu vestido amarelo
e nele verás as marcas da tua partida,
nas nódoas doloridas, das lágrimas caídas.

Somarás o tempo em que me mantive
contigo comprometida,
sem que te tivesse nem mesmo em retrato,
sem que meu coração ao menos me alertasse,
para o engano dos meus atos,
tampouco para meus desavisados passos.

Após a minha despedida,
ouvirás esta cantiga,
na voz da mesma amiga,
que sem nunca me negar favores
acompanhou-me pela trilha das dores.

Sei que ela atenderá o derradeiro pedido,
posto que inúmeras vezes
amparou o meu amor desiludido.

Ouvindo-a , enfim, meu rapaz,
não chores, jamais,
mantém secos os olhos
e engole cada uma das lágrimas,
com o pão do desamor
que tua insensibilidade amassou,
pois as mágoas, em gotas convertidas;
os choros desta insana lida;
as aflições liquefeitas já chorei eu,
desperdiçando muito tempo da vida
que um dia Deus me concedeu.

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5 de julho de 2010

Cabides humanos



Cabides humanos
maria da graça almeida

A ditadura da moda
-com o troféu da abstinência,
no pódio da desnutrição-
cerceou a naturalidade
das meninas que nas praças
comiam pipoca,
tomavam sorvete.

Montanhas de ossos
cruzam as passarelas.
Ao invés do glamour,
tão-só a anorexia
que amordaça
a liberdade de viver
sob os próprios moldes
da melhor idade.

Os olhos fixos no nada
amparam-se na maquilagem
que lhes camufla as olheiras.
Sobre pernas descarnadas,
num cruel exercício,
a juventude macilenta
e esquelética bamboleia.

Poeta do silêncio



Poeta do silêncio
maria da graça almeida

Sou poeta do silêncio,
da tortura, do tormento,
das ciladas, das caladas,
da mudez e do lamento.
Sou poeta vagabundo,
da mentira poeirenta,
que sorveu a gota insossa
de uma língua sonolenta.

Sou poeta -dos sem lida,
dos sem glória, dos sem nada-
que emprestou sua ternura
a uma lua mascarada.
Sou poeta da procura
e das letras apagadas
e no céu quando estiver,
declamarei do eu poeta
com a voz do eu mulher,
pois a minha fala esperta,
sem medida, imodesta,
dirá só o que Deus quiser.

1 de julho de 2010

Remorso/Arrependimento


Remorso/Arrependimento
maria da graça almeida

Nos dicionários,
em tempo,
logo se fica
sabendo
que remorso e
arrependimento
são vocábulos
sinônimos.

Em minha
opinião,
os sentidos
das palavras,
não são assim
tão simples
não!

Ao meu ver,
o remorso tem-se
pelo que se faz
e o arrependimento
pelo que
se deixa
de fazer.

Remorso
é o grande aperto
que espreme
nosso peito,
e nos treme
o coração,
se, em prejuízo
de alguém,
algum dia
nos valermos
de contundente
ação.

Arrependimento
é o sentimento
gerado por uma
contra ação,
ou seja,
por decisão
relegada,
com descaso,
ou insensatez
ou tão só
por opção.

28 de junho de 2010

Tempo


Tempo
maria da graça almeida

Abomino fotografias, documentos inquestionáveis
da devastação peculiar do calendário.

Certa jovem, do retrato, intrigada me espia.
Ora idosa, ao vivo, sob pele curtida,
derrama passado e nostalgia.
Fito rostos e corpos, comparo-os
e percebo que do ontem pouco restou.

Se por um lado o tempo traz a minoração das dores,
por outro, submete-nos à engenhosa metamorfose.
Estranha ação. Intenso poder!

Tempo, tempo -amigo e inimigo para sempre-
se ao menos nos emprestasse o melhor das horas,
se eternizasse os dias
ou se não nos tatuasse seus momentos,
por certo nos livraria
do cruel exercício do envelhecimento.

21 de junho de 2010

Escrevo


blogdocrato.blogspot.com

Escrevo
Maria da Graça Almeida


A escrita é o transbordar do excesso,
o derramamento do que já ultrapassou os limites.
É a forma de retratar o exagero dos sentimentos e a intensidade dos ritos.
Escrevo com a finalidade de resgatar o tempo e melhorar a relação com as letras que me desviam o pensamento da impotência do homem diante da finitude humana.
Escrevo como jeito de perscrutar a alma do leitor e nutrir-me das expectativas e dos sonhos de cada um, na tentativa de perpetuar mapas interiores e conservar pegadas que revelem as estradas onde piso.
Escrevo porque me apoio na impressão de que os homens sejam mais justos
e na convicção de que os justos sejam mais homens.
Escrevo para acreditar que ainda me habita a ilusão pueril de que o amor apresente-se somente como incondicional e eterna doação.
Quando pressentir que meus dizeres, já foram da mesma ou de outra forma ditos, desistirei de certas crenças e da mesmice da escrita.

17 de junho de 2010

Hipocrisia total


foto: psqemfoco-eventos.blogspot.com

Hipocrisia total
maria da graça almeida


Tempo do Natal:
generosidade assoberbada,
preocupação com os desfavorecidos,
súbita santidade,
humanos vestem-se de anjos.
Empunha-se a bandeira da solidariedade.
Nunca o homem foi tão bom!

Tempo da Copa:
sangue verde-amarelo,
juras de amor ao país,
reforços ao contorno do mapa
bandeiras nas sacadas,
nas janelas, nos carros.
Nunca o brasileiro foi tão patriota!

Findo o Natal, finalizada a Copa...
todos voltam ao normal
E o normal é a cara do dia a dia,
sem máscara, sem maquiagem:
descaso à situação do próximo,
desrespeito ao país e ao povo,
que, por sua vez,
desrespeita-se também.

Tempo e tempo:
tempos que não me convencem.
Tempos em que o calendário exala
euforia sazonal, hipocrisia total!

3 de junho de 2010

Borboleta


Borboleta
maria da graça almeida

Um rosto no espelho
mascarado dele mesmo...
É o tempo no vermelho,
falido, andando a esmo.
A mocidade esvaindo-se
sob olhares dispersos.
O viço subtraindo-se
diante dos alvos reflexos.

Que Deus nos auxilie
a enfrentar a realidade,
pois pior que a saudade
é a figura do passado,
que na sombra contrafeita
de um corpo alquebrado
teve a imagem imperfeita
e o semblante rasurado.

Bendita seja a lagarta
gosmento e grotesco ser,
porém fadado a ter
a imagem de uma floreta
que nas asas da beleza
faz voar a borboleta.

Um rosto no espelho
mascarado dele mesmo...
É o tempo no vermelho,
falido, andando a esmo.
A mocidade esvaindo-se
sob olhares perplexos.
O viço subtraindo-se
diante de novos complexos.

Baile de formatura


Baile de formatura
maria da graça almeida

No anel amarelo,
a pedra então falsa.
Franzido, singelo,
o vestido de alças...
Queria eu num elo
e em tempo da valsa,
o moço mais belo,
por força da graça.

E as moças donzelas,
as mais sensuais,
de rara beleza,
ao lado dos pais,
chamavam por ele,
pra ser o seu par,
o moço dourado,
o deus do lugar.

Meus ombros tremiam
e eu mais me agitava.
E ele gentil,
com todas dançava
e nem percebia
meu olho infantil,
colado ao seu...
Que céu sem anil,
que sina, meu Deus!

Findando a noite ,
a roupa amassada,
eu inconformada,
e a amiga me diz:
-É ele, está vindo!
Sorri! É feliz!
Chegando sozinho,
tão só por um triz
não erra o caminho!

Meu peito cansado
arfou exaurido,
então, apertado
e entristecido!

Enfim, ele chega
e falta-me o chão.
Sutil, a indagar,
segura-me as mãos:
- Disposta a dançar?

Acanhada e frágil,
não lhe respondi,
da amiga inábil,
resmungos ouvi.

O peito a pulsar,
senti-me sem ar,
descrente de mim,
não lhe disse sim.

Com a face sem cor
tentei me compor
e só fui capaz
de assim gaguejar:
- Agora, rapaz,
já nem quero mais.
- Que sorte fugaz!
- Diz isto, por quê?
- A mais linda valsa...
guardei pra você!

30 de maio de 2010

Lábios Vermelhos


Lábios Vermelhos
maria da graça almeida

Sobre a mesa, a régua longa, cor de canela, números grandes, brancos. Aterrorizados, meus olhos percorriam-na de ponta à ponta. Muitas vezes seu uso era indevido. Não recaía diretamente sobre ninguém, mas os golpes com ela desferidos, mesmo esfolando apenas mesas e cadeiras, chegavam a ser contundentes, porém, combinavam com a dona da voz seca e dura que a regia
-Aqui! Coloca o lápis aqui! Ouviu bem? Aqui! Aqui!
O lápis mudava de lado. Passava de uma mãozinha trêmula para a outra ainda mais. Desavisado, o menino permitia que seu queixo pontudo denunciasse-lhe o pânico. Sentia-se iminente um soluço.
Não chore, não chore - em pensamento, eu lhe pedia-.
Todas as manhãs, assim que eu chegava, de pronto examinava a sala conferindo sua presença. Se visse o corpinho franzino já a postos, um suspiro de alívio saia-me do peito: - Graças a Deus! Tomara que ele agüente. Tomara que ela desista. Ele, frágil, indefeso; ela, obstinada, persistente. Incansável! Ele pequeno, miúdo; ela, enorme, gigante. Batalha desigual.
Um dia, numa de suas investidas, ela torceu-lhe a orelha. Olhos arregalados, ele balbuciava algo indecifrável. Eu olhava dela o batom vermelho, laranja, amarelo, branco...Preto...tudo escuro. Bum! Um baque seco. Era minha cabeça que sobre a carteira despencara. Um súbito desfalecimento. O galo cantou.
- Essa menina não come nada, doutor! -Minha mãe preocupada. E o batom vermelho mudando de cor voltava à minha lembrança e meus ouvidos tornavam a captar os sons desconexos do menino.
- Veja, doutor, de repente, fica assim...branca! -Minha mãe insistia-.
Mais uns dias e o vi no pátio, no centro de um roda de moleques insolentes que se riam da sua gagueira. Antes ele falava lisinho, agora só aos solavancos. Emudecida, não tive coragem de assistir ao desfecho da crueldade. Tranquei-me no banheiro. E lá fiquei esquecida num canto úmido.
Será que amanhã ele virá? Veio. Uni meus dedos. Um gesto habitual de agradecimento aos céus. Mas os lábios vermelhos não desistiam. Moviam-se com rispidez, gritavam esbravejavam, cada vez mais alto, mais forte e insistiam na obrigação do pequeno.
E o lápis continuava a dança, de um lado por outro, um lado pro outro, de um lado pro outro...até que... pá! Um ruído seco! O rostinho do menino virado pro lado, na bochecha, a marca dos dedos longos e finos. Meu coração pulsava nos ouvidos.
Comecei a ver tudo com uma lentidão exagerada. E dolorida. O menino levantou-se, vagarosamente, subiu na carteira, olhou para todos e bradou com todas as força de um bravo e ultrajado soldado:
- Vai bater na tua filha e passar batom no teu...- a derradeira palavra, engoliu, pálido! Ficara assustado com a sonoridade de sua reação e a ausência momentânea da gagueira -. Solidária, e consciente do que viria depois - não desfaleci – tal qual ele, subi na carteira e tão alto quanto, gritei indignada:
- Vai mesmo, Dona Arlete! Vai, sim! A senhora ainda não sabe que o José Ciro é canhoto?!

Após a tentativa do primeiro ensinamento, pressenti qual seria minha profissão.

A primeira dor



A primeira dor
maria da graça almeida

Agora, morto...

Sentada no degrau da varanda, sob o céu azul de sempre, que de repente embranquecera, tive a real noção do meu tamanho. Era eu diminuta, no mundão de meu Deus...
Não entendia as folhas balançando com preguiça, nem conseguia compreender o que meu peito tentava explicar-me.
Perplexa, sentia uma dor que desconfiava não ser a do corpo.
Era a primeira vez que convivia com aquela sensação esquisita.
Olhava minhas mãos, meus braços, não via sinal nenhum.Feridas visíveis eu não tinha e
ainda assim experimentava uma ardência que, dentro de mim, confundia-se com um vazio
insuportável.

Logo que acordei, surpreendi minha mãe na cozinha.
Seus olhos boiavam.
Olhando o nada, ela confidenciava à ajudante:
- O menino morreu.
Entendi tudo. Falava do meu único amigo. Menino moreno, olhos profundos e brilhantes entre enormes cílios negros. Pernas finas, mas de uma vitalidade ímpar.
Nunca que eu conseguira acompanhar seu ritmo.
Veloz demais, não parava um minuto, subia e descia da camioneta do pai com uma agilidade admirável.
Era mais velho do que eu. Fizera nove anos, um quase adulto, na minha concepção, no entanto, tinha-me enquanto amiga. Era paciente comigo. Reconhecia-me.

Agora, morto...

A bicicleta que o levava de lá para cá, numa ruidosa alegria, acabou por conduzi-lo
ao céu, tão cedo...
Céu? Eu olhava para cima e apenas via a brancura sem graça das nuvens esparsas. De seu riso engraçado, o silêncio.
Tudo por causa de esfoladinho de nada, do qual tampouco ele reclamara...
Bicicleta desgraçada!
Tapei a boca com a mão para impedir que minha mãe ouvisse meu pensamento.
Ela, que não se dizia supersticiosa, detestava o termo, também a palavra azar.
Sempre que alguém os proferia, logo se mostrava preocupada:
- Não fale assim...não é bom.

Quando o soube doente, quis visitá-lo.
-Não pode! – era minha mãe consternada.
- Por quê?
- As visitas estão proibidas.–explica-me paciente- Ele está sensível aos ruídos. Qualquer barulho faz com que sofra de susto e tremores, convulsões. A febre é alta, está com tétano!
Tétano...eu repetia baixinho...soletrava devagarzinho: té-ta-no... nunca antes ouvira aquela palavra.
Quisera eu naquela hora emudecer os cães, aquietar os sussurros do vento, parar a andança dos carros e toda a movimentação que -com os aus, os vruns, os buns -aumentasse os ais do amigo.
Ele não podia sofrer. Precisava sarar e logo. Eu tinha pressa e certa estava de que ele também.

Agora, morto...

A idéia do nunca mais me desalentava. Sentia-me zonza, fraca.
E eu sempre tão lacrimejante não conseguia rolar os pingos que lavassem aquele sentimento estranho e infeliz.
A dor do corpo eu conhecera nas constantes crises de bronquite. Sem falar dos pontos que levei no pé, a seco, nada de anestesia. O médico que me socorreu era legista...fez o que pode...
Naquele dia eu inaugurava, com toda intensidade, a dor da alma.
Descobria a temperatura do medo. E a cor da aflição.

Soube que a impotência do homem não permite que ele conduza nem o próprio destino.
Minhas verdades assumiram o antes e o depois.
Não mais consegui viver sem estar sob a mira da preocupação.
Precocemente, comecei a perceber os sustos da sobrevivência.
Naquele dia conheci uma das esfarrapadas desculpas que a morte, com desenvoltura, costuma usar.
Nos baixos dos meus sete anos, não entendia por que a vida permitia que morte desse
a palavra final.
Ainda hoje não entendo.