26 de abril de 2010



O Vaga-lume
maria da graça almeida

Pisca, pisca o vaga-lume,
tão bonito é seu lume!
Pisca sempre sem parar,
seu piscar já é costume.

O miúdo vaga-lume
causa até muito ciúme,
pois, constante e interna,
ele traz sua lanterna.

Ela é feito a luz do dia,
toda cheia de energia,
nem precisa o vaga-lume
trocar sua bateria!

maria da graça almeida
ma.gla@uol.com.br

Poema Artesanato
Maria da Graça Almeida


Minha poesia é inglória,
vive em bancas incertas.
Do pódio e das vitórias,
traduz histórias discretas.
Nos dizeres, incontida,
minha poesia é de lua,
às vezes, reza vestida,
às vezes discursa nua.
Meu poema é artesanato.
E sai-me pronto das mãos.
Coso-o, com muito cuidado,
cirzo-o, sem distração.
Às vezes vem das sucatas,
de contas e velhos botões,
de renda e fitas baratas,
da fieira dos piões.
Que ressona atrás da porta,
tem os pêlos de um cão,
no final das linhas tortas
traz pena, paina, algodão.
Tem cores das violetas,
pose de pedra-sabão.
Nas asas da borboleta,
nem coloca os pés no chão.
O poema-artesanato
traz ponto-cruz, bordaduras.
É sempre um simples retrato
de uma notória figura.

25 de abril de 2010


No dia seguinte...
maria da graça almeida

Brinquedos, biscoitos
jogados ao chão
nos vidros e sofás,
indícios de mãos.
Findou a euforia,
graça, confusão!
Rompeu novo dia
vazio de emoção.

21 de abril de 2010


Abstrato quê
maria da graça almeida

Em meus ouvidos moram gemidos, que soturnos retraem-se;
no coração trago mitos que um dia enalteci,
em minha boca tenho gritos, que emudecidos esvaem-se;

Através de certas feridas, tardiamente, entendi
que as cores da vida, da aura e da alma dependem das dores que cada um traz dentro de si.

É impossível interagir com enigmáticas damas,
que têm, justa, a fama de levarem no trato um quê
do triunvirato mais abstrato que já conheci.



O servir -ainda que, às vezes, religiosamente
correto- cansa. Cada um responde ao servilismo
como melhor lhe aprouver.
Maria da Graça ALmeida

Maria Mortalha

Maria da Graça Almeida


Cedo, deitou-se Maria, pronta pra logo morrer,

vestindo a alva mortalha, sem medo de adormecer.

Os olhos, tanto mais fundos, coroados por olheiras,

cerravam-se moribundos, nessa hora derradeira.



Implorando-lhe ajuda, veio um moleque qualquer

- Vó, apanha uma agulha, tira-me o bicho do pé!

Servil, levanta a Maria, desvestindo a alva mortalha

e já mais morta que viva o bicho do pé estraçalha.



Volta, esvaída, Maria para o bom leito de morte,

quando lhe chega a nora , chorando a fome e a sorte.

Maria, do quarto, dormente, sai e aquece o fogão,

serve-lhe o leite fervente e duros nacos de pão.

Com a fome, então, saciada e o corpo fortalecido,

parte a jovem senhora com olhos agradecidos.



Maria assim, novamente, põe-se no leito de palha,

julgando que certamente não mais tiraria a mortalha.

E eis que lhe chega a vizinha com um pote tosco à mão.

Queria do sal só um pouco que lhe salgasse o feijão.

Maria deixa o leito... que a Morte espere um instante...

pra atender a boa vizinha, ergueu-se mesmo ofegante.

Bem cheio o pote de sal, a dona vai-se embora.

Maria já fria descora e aguarda da Morte a hora.



A Morte, que vinha chegando, notou-a em pele ardente,

porém, percebeu que a lida tornara Maria valente.

Vendo a mulher à espera, recolhida em seu leito,

ordena que se levante e atenda-a com medo no peito.

Maria coloca, surpresa, os olhos esbugalhados

sobre as vestes que a Morte trazia em trapos rotos, rasgados.



A Morte impõe, soberana: - Sobreviva só mais um dia,

ainda que condenada, cosa-me a capa, Maria!

E apontando-lhe as entranhas, ressecadas e vazias,

exige-lhe que ao fogo torne o leite que frio jazia.



Maria salta do leito, arranca a tal da mortalha

e sem mesura ou respeito, rebelde, à Morte detalha:

- Em face dos desmandos alheios,

viverei mais um ano e meio.



Maria da Graça Almeida/2001
texto publicado na Antologia Prêmio Cultura Nacional



6 de agosto de 2009
















Pai com açúcar

Maria da Graça Almeida

Queria o ídolo
ainda criança,
de gesto profundo,
de crenças maduras,
que me acalentasse
com voz da infância
e me orientasse
na vida futura.

Queria o ídolo
tranquilo na fala,
sereno nos olhos,
suave nas mãos,
disposto ao livro
das velhas escalas,
pra fácil compor
a nova canção.

Queria o ídolo
de francas verdades,
que orasse em silêncio
e ouvisse a razão
e na noite finda
tal qual serenata
abrisse as comportas
da antiga emoção.

Queria o ídolo
de farta poesia,
de longos poemas
e breves haicais.
Queria de novo
o meu velho amigo,
queria outra vez
as doçuras do pai.

16 de janeiro de 2009


Tristeza ou saudade?
maria da graça almeida

Instala-se, tão-somente,
em constante indagação.
Repousa nos olhos carentes,
pousa no aceno das mãos.

É dor funda, duplicada,
"com fusão" de sentimentos?
É tristeza, ou é saudade
espalhada peito adentro?
São as duas que se fundem
e confundem a realidade?

São os males, com certeza,
dupla sem identidade.
Ora se julgam tristeza...
ora se crêem saudade.

8 de outubro de 2008


Lora
maria da graça almeida

Nem mesmo sei qual o seu nome, só o conheci pelo apelido: Lora.
Motorista de um velho e sovina milionário, na verdade, fazia de tudo, servia também como segurança, enfermeiro, acompanhante e inda realizava os serviços de manutenção da casa. Verdadeiro "pau pra toda obra".
Julgávamos que quando morresse o patrão, o funcionário, pela extremada dedicação, herdaria parte de seus bens.
Qual o quê!
Lora ficara a ver navios, sem emprego, nem sequer a moradia teve garantida.

Nas ocasiões em que meu pai visitou o sovina, eu, ainda menina, ficava conversando com o empregado, sentada nos degraus da varanda.
Deixou-me saber de sua paixão. Disse-me que não era ambicioso, não precisava de muito para viver, só não lhe poderia faltar a cerveja, a companheira, seu único e brando vício.
Apesar de já ter certa idade, Lora era saudável e forte, pudera, seus braços ganharam rijos músculos de tanto conduzir o velho, escada acima e abaixo.
Depois da morte do patrão, tendo que dar um novo rumo à velha vida, foi até minha casa e informou-nos que fazia então, serviços de pintura...caso meu pai precisasse...
Desconfiei que Lora notara certa precisão, pois as paredes da casa já se mostravam descascadas aqui e ali.
Combinado o preço, logo no dia seguinte, compareceu, pronto para iniciar o trabalho.

Eu já percebera que na época de pinturas, de reformas, as lagartixas - que sempre foram o meu grande e profundo pavor -desalojavam-se de seus esconderijos e atordoadas corriam para todos os lugares. Resolvi, portanto, fazer uma combinação com Lora. A cada lagartixa que ele capturasse, eu lhe daria uma garrafa de cerveja. O homem aceitou a oferta, imediatamente.
Naquela época, cursando o sexto ano de piano, eu ganhava meu dinheirinho, por conta das aulas que me metia a ministrar para uns certos desavisados alunos, assim facilmente poderia cumprir com o prometido.

De vez em quando, Lora, sorridente, segurando uma bichinha pelo rabo, gritava para mim:
-Mais uma!
Eu corria, nem olhava ao lado, mas marcava na caderneta de capa preta o aumento da minha dívida.
Um dia, ao amanhecer, quase no final da pintura da casa, minha mãe entrou no meu quarto e perguntou-me com ares de espanto:
-Você perdeu o medo de lagartixa? Está criando uma?
Pulei da cama arrepiada e perplexa.
- Eu? Por quê? Deus me livre!
- É que lá embaixo, num cantinho do quarto dos fundos, há uma caixa de sapato com vários furinhos e dentro dela uma lagartixa...
-Uma lagartixa?!

Entendi...
Pobre bichinha, quantas vezes fora exibida? E bem que eu pude constatar, foi só me levantar e conferir na cadernetinha preta:uma, duas, três...onze...

Senti um ódio mortal de Lora e jurei que em seu túmulo escreveria a frase que só ele e eu -e agora vocês- entenderíamos:
Creio que o vício e a piedade sobrepujaram a honestidade.

24 de setembro de 2008



Comme Sinfonia
maria da graça almeida

Com o mesmo compasso
da interna melodia,
ouço nos acordes
de Comme Sinfonia
o fundo musical
da minha adolescência.
--------------------------------------------
A gota dependurada
inda vive quartos de hora.
Pelos cílios resguardada
não rola, nem evapora.

Define-me a memória
um amor tido como bom,
que por sobreviver tão pouco
nem causou decepção.

Imagens sinuosas desfilam
com os incômodos da inquietude,
enquanto os sons da maioridade
abafam as vozes da juventude.

Oh, permanente e decantada saudade,
revele-nos os sentimentos
que nos passeiam por dentro
em nostálgicos movimentos...

Oh, saudade sem urgências,
libere-me, recatada, a lembrança,
que dói, mas não tira nacos,
corrói e não deixa buracos.

Oh, saudade sã, que não dilacera,
preencha o vazio insistente
entre o ontem das quimeras
e o indeciso presente
travestido de espera...

20 de agosto de 2008


No Chile há muitos poetas. Não conseguia, eu, compreender o motivo de tal concentração, até quando, num hotel de Santiago, onde a janela abria-se despudoradamente para a magnitude das Cordilheiras, entendi! Envolvida por certa magia e estranha fantasia, consegui descobrir no perene espetáculo a abundância da fonte de onde flui a inspiração do chileno. Aí não tive saída, vigiando minha respiração, que já pressentia ofegante, larguei-me a escrever, olhando pela janela como se mirasse um quadro revelador das fronteiras do alumbramento e do limiar da alucinação.
Maria da Graça Almeida

Cordilheira
Maria da Graça Almeida

"Pós sinto" as pegadas dos deuses latinos,
pousando os pés divinos
sobre terras elevadas,
virgens meninas despenteadas.
Se uns o fizeram sutilmente,
outros calcaram de forma tal o chão,
que o viram, entre um passo e outro,
subir em altos picos, em duros bicos.

Meus olhos vagam pelo espaço alongado, recortado, sinuoso...
Galgam íngremes montanhas e, vertiginosamente,
despencam em quedas livres e fatais.
Depois, dão-se a escorregar e deslizar em pisos lisos,ou a rastejar,
arranhando-se na aspereza da textura visual.

Quando, dos anjos meninos, o sopro cálido
derreter o frio espesso e alvo que se moverá,
graciosamente, sobre a austeridade do marrom,
meu ser todo frágil, tolo e perplexo,
suspirará ante o imensurável espetáculo
do perpétuo bolo achocolatado,
coberto por um branco e absurdo glacê,
que lindamente escorrerá desenhos
abstratos e fantásticos, jamais
consumidos por simples mortais.

Às vezes os Deuses sabem ser cruéis!
Muitos deles zombam da impotência dos homens.
Outros lhes testam o tamanho do conformismo.
Nem tudo o que fartamente lhes expõem aos olhos,
facilmente lhes dispõem às mãos.

6 de julho de 2008


Em algum lugar
maria da graça almeida


Neste exato momento

há alguém partindo, alguém chegando;

há alguém sorrindo, alguém chorando.

Na complexidade do universo,

nenhum minuto é de dor absoluta,

nenhum segundo é de plena alegria,

tampouco de completa apatia.


Neste exato momento,

há um bebê que experimenta

um choro temeroso, profundo, ansioso.

Neste momento, de mim muito próximo,

pela origem, pelo afeto,

há alguém lutando pela vida,

ou dela desistindo, a cerrar os olhos

no desvendar dos mistérios e segredos,

no gozo da surpresa e do medo.


Neste momento há seres entregues,

amando-se loucamente

e seres odiando-se cegamente,

sem a preocupação com o amanhã,

na benevolência da afirmação,

ou no egoísmo da negação.


Neste momento há alguém traído;

há alguém abençoado, alguém excomungado;

há alguém sob a mira de um "tira",

ou ameaçado pelo ofício de um bandido.


Neste momento, há mais um aposentado sofrendo

as conseqüências do tempo trabalhado.

Neste momento há alguém derrotado,

em batalhas onde apenas há vencidos.


Neste momento, em algum lugar do planeta,

há alguém escrevendo coisas que encherão gavetas;

há quem no papel derrame letras

que tomarão o tempo dos desavisados,

cujo pensamento se ocupará da leitura

das mais estranhas figuras.


Neste exato momento, num profundo mal-estar,

cá estou eu a sombrear a tela,

querendo de algum modo me perpetuar,

que se não através das nuanças

dos versos de completa insignificância,

talvez, através do enlevo e da emoção,

que são de irrestrita relevância.


Do mundo, em todos os momentos e lugares,

sei que haverá, irremediável,

a dor do temor, da impotência,

da perda, da saudade, da desolação.

E neste mundo, mesmo convivendo

com os encantamentos e espetáculos,

os espectros dos citados maus tratos,

infelizmente, sempre nos ameaçarão.


Neste exato momento, em algum lugar há...

1 de julho de 2008


Saída
maria da graça almeida

Sairei da tua vida
sem as dores da paixão.
Secarei minhas feridas
no unguento da razão.

Mente sóbria e face ao vento
não computam prejuízos.
Boca oca de lamentos,
olhos cheios de sorrisos.

Passos largos, seta longa,
linha certa, ou contramão.
Sigo em frente e sem delongas
reafirmo a intenção.

Ora deixo a tua vida,
sem temores, sem afã.
Largo a chave na saída;
levo o ontem e o amanhã.

16 de maio de 2008


Em apenas um segundo
maria da graça almeida

Os segundos, apesar de infindos não se repetem,
renovam-se...a cada segundo.
Em apenas um segundo, tudo pode acontecer.
Chegamos ou partimos, ganhamos ou perdemos,
choramos ou sorrimos.
A transmutação vive à espreita para alcançar
e laçar o tempo em que se nos instalará.
Os segundos contêm o sempre, o nunca,
os encontros, os desencontros, a certeza,
a incerteza...
O júbilo e o pesar, que estão um do outro
a curtos passos, conseguem irromper,
de repente, tão-somente,
em um segundo, na modificação das trajetórias,
a desenharem novos rumos
e inusitadas histórias, que oferecem
o céu, ou que tiram o chão.
Os segundos ainda que breves, fugazes
são capazes de plantar a dor ou de colher a felicidade.
A vida neles acontece...a morte também.
Neles ocorre o princípio, acontece o final.
Em apenas um segundo pode nascer uma idéia
ou morrer um ideal.
Os segundos perpetuam-se através da saudade
e na alegria aniquilam-se pela efemeridade.

23 de abril de 2008


Passo
maria da graça almeida

Passo,
como passa a folha levada
pela insensatez do vento,
no jeito de ir sem sentir,
no modo de sair sem querer,
na forma de cair sem pedir.
Passo, como passa o pássaro,
que sem a anuência do divino,
põe um ponto clandestino
na palidez do horizonte.

Passo, como sem compasso
passam as gotas da chuva,
que por pressa ou, preguiça
descem sem escolher o caminho
e mesmo ao léu, sem destino,
invadem os poros da terra.
Passo e, díspares, imprimo veios
que caminham inconseqüentes
que se encontram em nascentes,
e se perdem em afluentes.

Passo, passo por passo,
com tropeços, com cansaço,
nas passadas dos percalços,
sem a dose do alento,
nos segundos do momento,
nas voltas, nos nós e laços,
nas idas e voltas do tempo.
Passo e, na dor do movimento,
piso um passo sem ungüento.
Passo...

11 de abril de 2008



O rio
maria da graça almeida

Rola o rio adormecido e mudo,
em cochicho miúdo, absurdo!
Desliza em cochilos alados,
num leito molhado e cansado.

Rola o rio em embalo trôpego,
com sibilos roucos e sôfregos.
Verte um choro machucado,
benevolente ou irado.

E rola descendo a serra,
em desgraça ou benefício,
ora mata a sede da Terra,
ora afoga-a em desperdícios.

Incauto, ignora o rio:
se a terra assim o quisesse,
dele faria um só fio,
antes que a cheia viesse.

28 de março de 2008

Sopro
maria da graça almeida

Há mais pessoas que sopram a chama para apagá-la,
do que as que o fazem para reavivá-la.

19 de março de 2008





Dentro de mim

maria da graça almeida

Dentro de mim
há um duende sem vida,
morreu de medo de morrer;
há um mofo iminente
na parede umedecida
pelo suor da solidão;
há a inquietude gelada
que flagrou o espectro sonolento
das mais frias madrugadas.

Dentro de mim
há a mágoa advinda
da perplexidade
diante da dormência
dos deuses e dos mitos.
Dentro de mim há um rito
de rebelião com causa,
mas, sem efeito ou direito
à perenidade humana.

Dentro de mim há um rio
que dia a dia resseca suas águas,
pois não suporta seguir
sem deixar rastros ou pegadas,
nem tolera ser limítrofe
das terras batidas
por onde a vida passa,
poeirenta e desprevenida.

Dentro de mim,
há o descaramento
que teima em ver -sem poder-
o fundo do poço,
o final da estrada
e o instrumento
que de vez distanciará
o denso, do sutil;
o corpo, da alma,
quando - insensato ou não-
irá submetê-los
à crueza da separação.



Entrelinhas

maria da graça almeida

Entregue-se ao solo do destino
e ao colo da poesia paraíso;
não fique à margem do caminho,
nem desbrave a terra do sozinho.

Molde o verso em redondilha,
com o cuidado de um santo,
pudores, recato e canto,
véus, capas e cantigas,
na mudez do doce segredo
de um recôndito desejo.

Faça do poema um verbo silente
e apenas o sustente,
provando-o com jeito,
posto que o pecado é um defeito
que todos os anjos têm medo.

Deixe-o renascer -num suave pranto,
sem testemunhas, com manto-
de um soluço de doçura,
que o sossegue da sua sede
de carinho e ternura.

Faça da palavra de candura
um tapete de suspiros,
onde cada amargura
adormeça sem gemidos,
e sem o insano perigo,
que impõe toda procura.

maria da graça almeida

18 de março de 2008


Sabe lá...
maria da graça almeida

Da morena esguia, o suspiro vasto; da ruiva robusta, o sopro exausto...
Vários ritmos, múltiplos passos, diversos pesos, o mesmo cansaço.
Impresso nos caminhantes, o tempo! Ora trôpego, mas a carregar uma aura de sabedoria e experiência; ora cambaleante -na indecisão dos primeiros passos-, isento de pegadas, de rastro; ora lépido, atrás das emoções,
dos sonhos próximos ou distantes, com crença, garra e força incomuns.
Sentada no banco úmido do parque, fitava-os espantada, nunca antes me rendera diante das surpresas, da magia e dos mistérios da vida, tampouco das evidências. Só viver é o que vale a pena -sempre foi este o meu lema-, porém percebi que a vida além de atraente, às vezes, sabe bem ser contundente.
Por isto hoje digo: viver vale a pena; morrer também!
Enquanto me conformava com tal descoberta, consolava minha filha que experimentava o mergulho inaugural na mais profunda depressão, e, sem saída, tanto quanto ela debilitada, ou inda mais, inventei, enfim, de ser forte...
Ofereci-lhe o que não tinha: otimismo, firmeza, coragem.
Como? Não sei...
Baixinho, arrisquei Djavan: “ sabe lá, não ter e ter que ter pra dar, sabe lá..."

10 de dezembro de 2007


Nada
Maria da graça almeida

Perguntas azuis, respostas transparentes;
indagações sonoras, retorno mudo,
nem ao mesmo mero contato para a negação.
Nove, dez anos de espera...de ansiedade, de gelo na fervura,
da quebra do aparelho de som.
Silêncio absoluto.

Bobagem! O que é isso diante de, ainda,
um dia inteiro para viver?

1 de outubro de 2007


Maturidade
maria da graça almeida


É o tempo quando da procura já se possui o achado.

Quando dos sonhos já se tem a direção

e das ilusões, a condução.

É o tempo pleno do saber, do sentir, do conhecer,

quando somos, nós mesmos, a resposta

para quase todas as perguntas.



É a melhor parte do caminho, lugar privilegiado,

de onde ainda se avistam os arroubos da adolescência,

e, com a mesma nitidez,

vislumbra-se a calmaria da grande idade.

É quando da balança já se sabe dos pesos

e das medidas, porque na convivência

da esperança com a saudade,

tem-se tanto para esperar,

quanto se tem para lembrar.

É quando já se pode escolher

com conhecimento de causa

e com a segurança do entendimento,

pois que em cada passo a ser pisado

e em cada trilha a ser percorrida,

estarão as certezas da certeza e a certeza da dúvida.

Posto que das certezas, não mais se duvida

e das dúvidas tem-se a exata certeza.


Que belo tempo, sublime idade! Madura idade! Maturidade!

É a primavera do verão, o outono da primavera,

é a multiplicação da emoção pela soma da espera.


maria da graça almeida





Limites
maria da graça almeida

Minhas janelas cerram -se quando
a emoção ousa falar mais alto do que a razão.
Tenho nítida a consciência dos limites,
sei onde se alojam meus pontos vulneráveis.
Não alimento os propósitos de um campeão
que batalha pela própria superação.

Meus passos são silenciosos,
minhas mãos, tímidas, frágeis...
Meus sonhos, desavisados, sempre
adormecem antes da concretização.
A excessiva cautela que me habita
retrai e distrai a força da intenção.

Das próprias fronteiras, conservo a percepção.
Meus marcos não demarcam, isolam.
Da impossibilidade, detenho a noção.
Meus limites não distinguem, segregam.
São chagas vivas...balizas da solidão.

Há alguma coisa
maria da graça almeida

Há alguma coisa no ar,
que não me deixa respirar;
alguma coisa na garganta,
que me impede de orar.

É algo além da lembrança,
além do poder, além da vontade.
É feito a liberdade
doada a quem não a solicitou.

O tempo que vaga a esmo,
ocultando-se da vida,
escondido dele mesmo.

O querer em tom menor,
que faz os desejos estreitos
e a impotência maior.

O desencanto de apenas ser
uma dúvida do próprio saber.

São os desmandos do ego,
em detrimento das possibilidades.

É a ida, sem a volta das horas,
esquecida na menoridade.

A honestidade do espelho
a duvidar da tonalidade
dos fios de certos cabelos.

A verdade que aponta
para a escada de dupla mão,
cujos degraus,
somente, conduzem
ao único desvão.

É, na realidade,
a ausência de mim
que me faz pressentir,
prepotente e tão presente,
a irreversibilidade
do fim.

Gene
Maria da Graça Almeida

Eis que te olho
e de pronto pressinto
minha cara escancarada
em tua face jovial;
meu jeito indolente
esboçado em teus
trejeitos insolentes;
meu sorriso comedido
rascunhado em teu
riso desmedido.

Eis que me olho
e radiante descubro
tua infante figura
lindamente embutida
em minha antiga
caricatura.

A nova vela
solta ao vento,
do velho barco
em movimento,
é um perene
e farto aceno.

Maria da Graça Almeida

Futuro antecipado


Futuro antecipado
maria da graça almeida


Solitária, no tempo antecipei o futuro.
Adiantei-me e, com pressa e coragem,
experimentei-me trinta anos mais velha .

Pressenti meu olhar desbotado
a olhar por uma janela vazia.
Era a janela da minha alma
que a duras penas sobrevivia.
Abateu-me profunda a nostalgia
e um "banzo” diferente,
como se fosse eu a própria pátria
e de mim estivesse distante.

Senti falta do espelho ovalado
onde os sonhos eram cuidados
pelos olhos, cujo rímel
alongava os cílios da juventude
e pela boca, cujo batom
distribuía a bênção da inexperiência.

Senti uma saudade antecipada,
que me pôs desconcertada,
quando por um instante
fechei a porta do presente
e coloquei-me com os dois pés
numa estrada sem retorno
a lamentar a ausência de um passado
de trilhas e atalhos iluminados.

Senti do amanhã
os tremores das mãos envelhecidas.
Ouvi a voz do tempo pelo balbucio
dos lábios ressequidos e descorados.

Não sei se o mais contundente
foi o sabor da velhice vinda
ou se a certeza da juventude finda.

Antevi meus filhos, já avós;
meus netos, então pais.
Antevi-me bisavó, tataravó...
E eu estava ali,
com a face que não era minha,
num corpo estranho
que eu desconhecia,
corpo que se estreitara
e que pelo enrijecimento
não mais me servia.

Sem permissão,
um idoso por inteiro me habitava
e eu estranhei-lhe os hábitos,
os passos trôpegos e a pouca visão.
A grande idade penetrou-me com crueza
e mostrou-me o peso da limitação.

Aí, abruptamente, subtraí-me do futuro.
Trinta a mais são anos demais...
Talvez, mais três décadas destruíssem
a memória dos dias significativos
e a lembrança dos melhores sentimentos
que empalidecidos ficariam pra trás.

maria da graça almeida

Fique


Fique
maria da graça almeida

A você- que, com pele ardente e olhos brilhantes,
ensinou-me a doce urgência de encantar;
com braços miúdos provou-me que para crescer,
o amor não precisa de espaço;
com tenra idade e graça incomum,
doou-me a musicalidade da mais ingênua gargalhada;
que me fez experimentar o gosto
do exercício do amor incondicional
- eu só peço: fique!
Não se ausente.
Juro que meus olhos lhe abrirão
os mais firmes e coloridos caminhos.
Minha vivência tratará de seu aprendizado,
enquanto um diamante a ser, com zelo
e delicadeza, lapidado.
Minha dedicação lhe oferecerá a certeza
de que nunca estará sozinho.
Fique! Em meu peito lhe construirei um pódio
onde diariamente comemorará a conquista
do primeiro lugar no campeonato da felicidade
e receberá o troféu do afeto permanente.
Não bata as asas. Não se iluda com a altitude.
Muitas vezes, é o pé no chão que nos mostra
a verdadeira direção da liberdade. Fique!
Desça da idéia de voar.
O passeio pelo ar não deixa pegadas, nem pistas.
Os percursos que não permitem rastros
tornam a jornada improfícua.
Não se apresse em me deixar.
Venha! Dê-me suas mãos.
Seu pequeno ser instalou-se
no maior lugar do meu coração.
Fique!

30 de setembro de 2007

Amar
maria da graça almeida

Amar é o arrepio que se sente no verão;
é levitar sem tirar os pés do chão;
é tentar dormir para outra vez sonhar
um sonho do qual não se quer mais despertar.

Amar é carregar um fardo de emoção,
é gelar as mãos no afã da pulsação;
é crer anil um céu dormente e desbotado
e ter o dia feito domingo ou feriado.

É o reflorescer seja em qualquer idade
e entre a razão e o coração pressentir
que a paixão não tem prazo de validade.

É manter no amado o primeiro namorado
e encantar-se com seu jeito de sorrir,
mesmo que com este já esteja acostumado.

Cabides humanos
maria da graça almeida


A ditadura da moda
-com o troféu da abstinência,
no pódio da desnutrição-
cerceou a naturalidade
das meninas que nas praças
comiam pipoca, tomavam sorvete.
Montanhas de ossos
cruzam as passarelas.
Ao invés do glamour,
tão-só a anorexia,
que amordaça a liberdade
de viver sob os moldes próprios
da melhor idade.
Os olhos fixos no nada
amparam-se na maquilagem
que lhes camufla as olheiras.
Sobre pernas descarnadas,
num cruel exercício,
a juventude macilenta
e esquelética bamboleia.

25 de setembro de 2007

Sei que estará lá
de maria da graça almeida
Em algum recanto do futuro, sei que você estará.
Com o mesmo sorriso, o mesmo olhar,
o mesmo perfume...as mesmas convicções.
Ainda que numa edição antiga,
feito uma caricatura da figura,
que um dia já foi, ainda assim, bem sei que lá estará,
cheia de energia, com a aparência que nos permite a grande idade,
a esbanjar otimismo, a exalar certezas.
Fios que lhe prateiam as têmporas, sulcos que lhe quadriculam a tez.
Nas mãos, tremores em compasso ternário,
no ensaio da mais linda valsa imaginária...
A emoção criança; a esperança menina;
os desejos adolescentes, porque sentimentos não envelhecem;
porque os anseios não desbotam;
porque o amor não tem prazo de validade;
porque todo dia é um recomeço;
porque nunca é tarde para experimentar;
PORQUE QUANDO OUSAMOS,
É QUANDO PRATICAMOS OS SONHOS.