Caneta vermelha
maria da graça almeida
Não transmudem a poesia,
nem violentem os poemas,
o que vale é o que a alma desenha
com os pincéis do alumbramento.
Não dilacerem o dito
no afã do grito alheio.
Deitem o pensamento,
a percepção, os motivos,
de acordo com seus sentimentos.
Não se predisponham
aos óculos, às bengalas.
O dom caminha com boas pernas
e a arte nunca foi cega.
Afastem a caneta vermelha,
o que vale é o rito, a lenda,
o mito da autêntica entrega.
Sigam fiéis a seus versos,
não permitam que terceiros
alterem-lhes os manifestos,
dilatem ou os partam ao meio.
Somente a letra própria
oferece as pistas
de um momento pessoal
e da original intenção
do artista.
Maria da Graça Almeida, nascida em Pindorama - São Paulo. Escritora, poetisa, professora, pedagoga e formada em Educação Artística. Obras Físicas Publicadas: - Espelho - Poesias Sem Mistério - A Graça que o Bicho Tem - Que traça sem graça - Mitos do folclore - A Menina da janela - O Cuco Maluco - O Besouro doente. - Olhos espertos - A substituta -romance
13 de agosto de 2011
12 de agosto de 2011
Descansa, poeta
Descansa, poeta
maria da graça almeidaDescansa, poeta,
a vida é uma festa!
a lua apontou!
Repousa com graça,
nos bancos das praças,
ninguém te ameaça,
a alegria raiou.
Sorri das belezas!
A vã incerteza,
o tempo levou.
O verso é grandeza,
A rima é certeza,
o poema, a nobreza
que alma ganhou.
Mas, quando, poeta,
um dia, sentido,
da cor, distraído,
o amor terminar,
levanta sem graça,
nos bancos da praça,
a dor vai chegar.
Aí, chora, poeta,
o amor que passou.
Ao fim dessa festa,
a flor definhou,
a rima é indigesta,
o verso não presta,
a Poesia acabou.
31 de julho de 2011
Reversão
Reversão
Maria da Graça Almeida
Para muitos o envelhecimento é sinônimo de sofrimento, principalmente para as mulheres, mais ainda para as vaidosas.
Ainda que se surpreendam, digo que o incômodo que nos traz a metamorfose imposta pelo tempo é passível de conserto.
Não a metamorfose, propriamente, mas sua aceitação.
Não acreditam? Posso esclarecer.
Se não podemos lutar contra a ancianidade, por que não nos aliarmos a elas?
Parece complicado? Não é!
Parece impossível? Também não.
Então como isso se daria? Facilmente!
Em vez de temê-la, que a esperemos com ansiedade. Que revertamos os valores e os padrões de beleza
e transformaremos os danos da velhice em bens preciosos.
Imaginem que felicidade se assumíssemos a postura de enxergar o declínio da juventude como um fator de exuberância e esplendor.
Imaginem que estimulantes as conversa e as observações fluindo desta maneira:
Ester engordou, está cheia de pneus, uma maravilha, vou pedir-lhe o endereço do médico que a está tratando.
Marina adquiriu as desejadas celulites, foram tantos tratamentos, mas agora conseguiu obtê-las. Anda feliz da vida!
Não vejo a hora de ficar com os peitos iguais da Amelinha. Quase alcançam o umbigo! Uma perfeição.
Ivete já voltou da Europa. Fez plástica por lá, com um ótimo cirurgião. Está com o rosto plissadinho! Maravilhosa, quase não a reconheci.
Magnólia, enfim, conseguiu ter o couro cabeludo à mostra! Anda radiante. Só não conta o segredo do que passou nos cabelos para caírem tão rapidamente.
Ingrid até que enfim pode usar regatas, seus braços exibem uma flacidez invejável.
As orelhas da Maria Alice, magníficas, cresceram tanto que ela nem mais precisa usar brincos. Eram tão acanhadinhas, as coitadas!
Clementina, logo mais, fará plástica no nariz, Disse-me que ele está ainda muito pequeno
e, irritantemente, arrebitado. Quer aumentá-lo e envergá-lo o máximo possível.
Os cotovelos da Melina estão pregueadinhos, não sei como os conseguiu tão graciosos!
E as mãos de Maitê! Nossa, não tem pra ninguém, nunca vi outras feito as delas, já estão
lindamente vincadas, logo mais estarão plenamente amassadas.
Da Idalina, o pescoço e o colo, juro, perfeitos, impecáveis! Não mais mostram aquela pele lisa, esticada, horrorosa.
Que sorte deste pessoal! Envelheceu precocemente. Um dia ainda chegarei lá!
E então? Não é uma ótima saída?
Bem, e isso é tudo, ou quase...
Senhores e senhoras formadores de opinião, abracem esta causa, afinal , um dia também sofrerão com desmandos
do tempo e com a força da mão da gravidade.
Que os valorizemos com fervor.
Obs.: Tomei o cuidado de não colocar nome de ninguém da minha família,
nem das minhas amigas, senão...ai, ai, ai....
Maria da Graça Almeida
Para muitos o envelhecimento é sinônimo de sofrimento, principalmente para as mulheres, mais ainda para as vaidosas.
Ainda que se surpreendam, digo que o incômodo que nos traz a metamorfose imposta pelo tempo é passível de conserto.
Não a metamorfose, propriamente, mas sua aceitação.
Não acreditam? Posso esclarecer.
Se não podemos lutar contra a ancianidade, por que não nos aliarmos a elas?
Parece complicado? Não é!
Parece impossível? Também não.
Então como isso se daria? Facilmente!
Em vez de temê-la, que a esperemos com ansiedade. Que revertamos os valores e os padrões de beleza
e transformaremos os danos da velhice em bens preciosos.
Imaginem que felicidade se assumíssemos a postura de enxergar o declínio da juventude como um fator de exuberância e esplendor.
Imaginem que estimulantes as conversa e as observações fluindo desta maneira:
Ester engordou, está cheia de pneus, uma maravilha, vou pedir-lhe o endereço do médico que a está tratando.
Marina adquiriu as desejadas celulites, foram tantos tratamentos, mas agora conseguiu obtê-las. Anda feliz da vida!
Não vejo a hora de ficar com os peitos iguais da Amelinha. Quase alcançam o umbigo! Uma perfeição.
Ivete já voltou da Europa. Fez plástica por lá, com um ótimo cirurgião. Está com o rosto plissadinho! Maravilhosa, quase não a reconheci.
Magnólia, enfim, conseguiu ter o couro cabeludo à mostra! Anda radiante. Só não conta o segredo do que passou nos cabelos para caírem tão rapidamente.
Ingrid até que enfim pode usar regatas, seus braços exibem uma flacidez invejável.
As orelhas da Maria Alice, magníficas, cresceram tanto que ela nem mais precisa usar brincos. Eram tão acanhadinhas, as coitadas!
Clementina, logo mais, fará plástica no nariz, Disse-me que ele está ainda muito pequeno
e, irritantemente, arrebitado. Quer aumentá-lo e envergá-lo o máximo possível.
Os cotovelos da Melina estão pregueadinhos, não sei como os conseguiu tão graciosos!
E as mãos de Maitê! Nossa, não tem pra ninguém, nunca vi outras feito as delas, já estão
lindamente vincadas, logo mais estarão plenamente amassadas.
Da Idalina, o pescoço e o colo, juro, perfeitos, impecáveis! Não mais mostram aquela pele lisa, esticada, horrorosa.
Que sorte deste pessoal! Envelheceu precocemente. Um dia ainda chegarei lá!
E então? Não é uma ótima saída?
Bem, e isso é tudo, ou quase...
Senhores e senhoras formadores de opinião, abracem esta causa, afinal , um dia também sofrerão com desmandos
do tempo e com a força da mão da gravidade.
Que os valorizemos com fervor.
Obs.: Tomei o cuidado de não colocar nome de ninguém da minha família,
nem das minhas amigas, senão...ai, ai, ai....
26 de julho de 2011
Opostos
maria da graça almeida
Do solicitante,
o tempo é ansioso.
Do solicitado, moroso .
Os tempos diferem,
as metas são desiguais.
Os caminhos, opostos.
Um segue a trilha da aflição,
o outro, o rumo do enfado .
Do solicitante, a ansiedade
usa os andrajos da humilhação,
as vestes rotas da humildade.
Do solicitado, a disponibilidade
exibe a coroa do descaso
e o cetro da superioridade
maria da graça almeida
Do solicitante,
o tempo é ansioso.
Do solicitado, moroso .
Os tempos diferem,
as metas são desiguais.
Os caminhos, opostos.
Um segue a trilha da aflição,
o outro, o rumo do enfado .
Do solicitante, a ansiedade
usa os andrajos da humilhação,
as vestes rotas da humildade.
Do solicitado, a disponibilidade
exibe a coroa do descaso
e o cetro da superioridade
24 de julho de 2011
Quelelê- O jurássico Vós
Quelelê
maria da graça almeida
Ai, Senhora das boas línguas,
rogai por eles, os fuxiqueiros,
não permitais que o mundo inteiro,
de petas, calúnias e injúrias,
transforme-se em vasto celeiro.
Ai, donas das línguas felinas
não deixeis que vossas bocas ferinas
levantem falsos testemunhos,
assinando de próprio punho
a maledicência feminina.
Ai, mulheres da língua limosa,
calai os lábios infecundos.
Que apenas as falas zelosas
traduzam o âmago do homem
e cuidem da alma do mundo.
maria da graça almeida
Ai, Senhora das boas línguas,
rogai por eles, os fuxiqueiros,
não permitais que o mundo inteiro,
de petas, calúnias e injúrias,
transforme-se em vasto celeiro.
Ai, donas das línguas felinas
não deixeis que vossas bocas ferinas
levantem falsos testemunhos,
assinando de próprio punho
a maledicência feminina.
Ai, mulheres da língua limosa,
calai os lábios infecundos.
Que apenas as falas zelosas
traduzam o âmago do homem
e cuidem da alma do mundo.
20 de julho de 2011
João,
eis que me ponho descontraída,
sentada à mesa, com a marca Brahma,
em grandes letras, cotovelos apoiados, displicente,
esquecida da etiqueta, ouvindo sem ser ouvida,
vendo sem ser vista, da timidez distraída,
embriagada da presença de meus ídolos,
quando neles descubro uns mitos tão homens
e uns homens mais mitos.
Quantas vezes desejei, tal qual sorrateira mosca,
pousar, não na sopa do Raul, mas nos mais inusitados
e inacessíveis lugares, onde, invisível ao espetáculo,
ainda que cotidiano, repousasse por prazer, gosto e vontade,
sem proibição,reserva ou punição.
E, hoje, sem metamorfose, nem deslocamento físico,
finalmente, aterrissei! Você conseguiu o milagre!
Lendo Toquinho, conheci mais Vinícius,
ficamos amigos, lendo Vinícius,
descobri mais Toquinho e mais Toquinhos,
somos parceiros, ainda que nem saibam
ou, desconfiem!
Participar de tão milionários mundos interiores,
sem a preocupação de ser inconveniente,
sem o temor de importunar, preservando-lhes a privacidade
e o direito de comumente viver,
traz-me a confortável sensação do respeito pelo espaço alheio
e a peculiar serenidade do bom senso.
E você, heim, João! Como diz bem!
Que saborosa fluência! Quão envolvente é sua palavra!
Em proseando, poeticamente desvenda intensos mistérios,
com os quais ludibriamos o tempo, desprezamos as distâncias
e, vibrantes,arremetemo-nos de corpo,cabeça e sentimento
a momentos e lugares singulares e especiais.
Obrigada, João Pecci, por despi-los de uma forma
surpreendentemente clara e bela e sublime.
Um grande abraço, cheio de admiração!
Jamais emudeça. Continue dizendo...
sempre...
Maria da Graça Almeida
eis que me ponho descontraída,
sentada à mesa, com a marca Brahma,
em grandes letras, cotovelos apoiados, displicente,
esquecida da etiqueta, ouvindo sem ser ouvida,
vendo sem ser vista, da timidez distraída,
embriagada da presença de meus ídolos,
quando neles descubro uns mitos tão homens
e uns homens mais mitos.
Quantas vezes desejei, tal qual sorrateira mosca,
pousar, não na sopa do Raul, mas nos mais inusitados
e inacessíveis lugares, onde, invisível ao espetáculo,
ainda que cotidiano, repousasse por prazer, gosto e vontade,
sem proibição,reserva ou punição.
E, hoje, sem metamorfose, nem deslocamento físico,
finalmente, aterrissei! Você conseguiu o milagre!
Lendo Toquinho, conheci mais Vinícius,
ficamos amigos, lendo Vinícius,
descobri mais Toquinho e mais Toquinhos,
somos parceiros, ainda que nem saibam
ou, desconfiem!
Participar de tão milionários mundos interiores,
sem a preocupação de ser inconveniente,
sem o temor de importunar, preservando-lhes a privacidade
e o direito de comumente viver,
traz-me a confortável sensação do respeito pelo espaço alheio
e a peculiar serenidade do bom senso.
E você, heim, João! Como diz bem!
Que saborosa fluência! Quão envolvente é sua palavra!
Em proseando, poeticamente desvenda intensos mistérios,
com os quais ludibriamos o tempo, desprezamos as distâncias
e, vibrantes,arremetemo-nos de corpo,cabeça e sentimento
a momentos e lugares singulares e especiais.
Obrigada, João Pecci, por despi-los de uma forma
surpreendentemente clara e bela e sublime.
Um grande abraço, cheio de admiração!
Jamais emudeça. Continue dizendo...
sempre...
Maria da Graça Almeida
Atraso
Maria da Graça Almeida
Conheci minha mãe,
então, mãe de cinco filhos!
Conheci-a já cheinha
de corpo e preocupação.
Não sei se fui bem-vinda,
às vezes penso que não!
Já lhe pesava a idade
e uma barriga a mais,
numa idade avançada,
ainda pesa tão mais!
E assim mesmo apareci,
mesmo sem ser convidada,
mesmo sem prévio aviso,
mesmo sem hora marcada!
- Ô mãe, desculpe
minha visita inesperada!
Quando já queria repousar,
desnudando a idade;
quando, calada, retratava
só a doce santidade;
quando a pálida boca
não mais tinha vaidades,
chego eu distraída, atrevida,
toda em bronquite,
e outros itens em ite,
que a obrigaram
na madrugadas sombrias,
nas noites quentes ou frias,
a caminhar pela casa comigo
no colo envelhecido,
colo que mais merecia,
num bom leito, relaxar;
colo com missão cumprida,
de vida, enfim, resolvida
prontinho pra descansar...
- Ô mãe, quantos anos eu lhe devo?
Imagino... mas ainda assim me atrevo,
nestes versos, a indagar!
Ô mãe, de anos e anos já muitos,
de tempos de alto custo,
quase a mato de amor,
depois de matá-la de susto!
Maria da Graça Almeida
Maria da Graça Almeida
Conheci minha mãe,
então, mãe de cinco filhos!
Conheci-a já cheinha
de corpo e preocupação.
Não sei se fui bem-vinda,
às vezes penso que não!
Já lhe pesava a idade
e uma barriga a mais,
numa idade avançada,
ainda pesa tão mais!
E assim mesmo apareci,
mesmo sem ser convidada,
mesmo sem prévio aviso,
mesmo sem hora marcada!
- Ô mãe, desculpe
minha visita inesperada!
Quando já queria repousar,
desnudando a idade;
quando, calada, retratava
só a doce santidade;
quando a pálida boca
não mais tinha vaidades,
chego eu distraída, atrevida,
toda em bronquite,
e outros itens em ite,
que a obrigaram
na madrugadas sombrias,
nas noites quentes ou frias,
a caminhar pela casa comigo
no colo envelhecido,
colo que mais merecia,
num bom leito, relaxar;
colo com missão cumprida,
de vida, enfim, resolvida
prontinho pra descansar...
- Ô mãe, quantos anos eu lhe devo?
Imagino... mas ainda assim me atrevo,
nestes versos, a indagar!
Ô mãe, de anos e anos já muitos,
de tempos de alto custo,
quase a mato de amor,
depois de matá-la de susto!
Maria da Graça Almeida
11 de julho de 2011
7 de julho de 2011
Nada com nada
Nada com nada
maria da graça almeida
Trovas
O amor que cedo arrefece
da rotina é refém,
o nariz que muito cresce
mede mentiras de alguém.
O petiz que empina a pipa
nasceu de cara pintada,
sobre um berço de ripa,
dentro da casa caiada.
A vida de todos nós
tem contornos e debruns,
desde a barra até o cós
a costura é incomum.
A reza é a prece silente,
de quem nasceu para o bem.
A lima com mais sementes,
mais doce o caldo contém.
O vento que venta forte
traz a poeira do além,
se um dia saudar-lhe a morte,
convide-a a morrer também.
A tarde chega brilhante,
ofusca os olhos de quem
ao dia é rico gigante,
à noite, anão sem vintém.
5 de julho de 2011
Do livro Olhos Espertos de maria da graça almeida
Peixe
maria da graça almeida
O peixinho prateado
no aquário sempre vejo!
Bem me fita, o assanhado,
só querendo me dar beijos.
Sua boca um “oi” miúdo
vai dizendo e isso é bom,
só o peixe, neste mundo,
fala “oi”, sem soltar som.
Seleção de poemas infantis
Serafina
maria da graça almeida
Serafina, Serafina...
sempre a vejo na janela!
Será grossa ou será fina,
sua canela, ó menina?
Serafina, Serafina,
eu ainda hei de vê-la
corpo inteiro, na esquina,
sob as luzes das estrelas.
Seu sorriso é agigantado,
os olhinhos são brilhantes,
o nariz, tão empinado,
o pescoço, elegante!
Minha doce, Serafina...
o rostinho já conheço,
e sua perna, ó menina,
será grossa ou será fina?
DO livro Olhos Espertos, poemas para criança
maria da graça almeida
Serafina, Serafina...
sempre a vejo na janela!
Será grossa ou será fina,
sua canela, ó menina?
Serafina, Serafina,
eu ainda hei de vê-la
corpo inteiro, na esquina,
sob as luzes das estrelas.
Seu sorriso é agigantado,
os olhinhos são brilhantes,
o nariz, tão empinado,
o pescoço, elegante!
Minha doce, Serafina...
o rostinho já conheço,
e sua perna, ó menina,
será grossa ou será fina?
DO livro Olhos Espertos, poemas para criança
Homens de uma só mulher
Homens de uma só mulher
maria da graça almeida
As vantagens de ser homem de uma só mulher
são muitas. Poderíamos enumerar várias delas,
porém vivemos o tempo da concisão e da brevidade.
Os homens de uma só mulher não sofrem de
ansiedade, são felizes, serenos, realizados.
Bons maridos e pais, ótimos avôs, amigos sinceros
e colegas amáveis, desconhecem a dor das surpresas
desagradáveis, não atropelam o tempo,
são inteiros, indivisíveis. Andam alinhados com
o conformismo, não o conformismo que tolhe
a evolução e sim o que conforta e proporciona a paz.
Seguros , proporcionam segurança.
São dotados de extrema tolerância, não a tolerância dos tolos,
mas a dos pacificadores. Valorizam a amizade, a cumplicidade,
a solidariedade.
Não são volúveis, nem indecisos, têm a determinação
como característica de personalidade.
Enfim, os homens de uma só mulher são homens
especiais! E raros, posto que estão em extinção.
Em contrapartida... há um custo que lhes onera
a vaidade.
Com dissabor, constatam no envelhecimento
da companheira o enredo do próprio envelhecimento.
Agora, pasmem: os homens de uma só mulher,
são sobretudo homens de mulheres sós.
O cotidiano implacável faz com que não
enxerguem a mulher especial, forte, corajosa
que têm ao lado, ainda que elas passem a vida
proporcionando-lhes a condição e o conforto
de serem homens de uma só mulher.
maria da graça almeida
As vantagens de ser homem de uma só mulher
são muitas. Poderíamos enumerar várias delas,
porém vivemos o tempo da concisão e da brevidade.
Os homens de uma só mulher não sofrem de
ansiedade, são felizes, serenos, realizados.
Bons maridos e pais, ótimos avôs, amigos sinceros
e colegas amáveis, desconhecem a dor das surpresas
desagradáveis, não atropelam o tempo,
são inteiros, indivisíveis. Andam alinhados com
o conformismo, não o conformismo que tolhe
a evolução e sim o que conforta e proporciona a paz.
Seguros , proporcionam segurança.
São dotados de extrema tolerância, não a tolerância dos tolos,
mas a dos pacificadores. Valorizam a amizade, a cumplicidade,
a solidariedade.
Não são volúveis, nem indecisos, têm a determinação
como característica de personalidade.
Enfim, os homens de uma só mulher são homens
especiais! E raros, posto que estão em extinção.
Em contrapartida... há um custo que lhes onera
a vaidade.
Com dissabor, constatam no envelhecimento
da companheira o enredo do próprio envelhecimento.
Agora, pasmem: os homens de uma só mulher,
são sobretudo homens de mulheres sós.
O cotidiano implacável faz com que não
enxerguem a mulher especial, forte, corajosa
que têm ao lado, ainda que elas passem a vida
proporcionando-lhes a condição e o conforto
de serem homens de uma só mulher.
Do lIvro Olhos espertos de maria da graça almeida
Assovio de garoto
maria da graça almeida
Chega leve aos meus ouvidos
um ventinho musical!
Feito o som dos passarinhos,
outro, nunca ouvi igual!
Sopro de vento desperto,
doce brisa natural.
Vento que venta bem perto
não resfria, não faz mal.
Que a tristeza não espante
o ventinho tão maroto
que o vento sempre cante
no biquinho do garoto!
5 de junho de 2011
Amigos
-Trecho do novo livro: A Substituta- romance por Maria Da Graça Almeida,
Amigo é a extensão de nosso corpo, que tem vida própria. Não pensa, nem age como agimos, mas conosco interage como se fosse o terceiro braço de um mesmo corpo.
Não se envergonha de nossas fraquezas; não recrimina nossos deslizes; não nos aponta as vilezas; não nos dita regras; não nos impinge culpa; não nos exige juventude eterna...
Compreende nossas limitações. Entristece-se com nossos pesares; chora as nossas dores; emociona-se com nossa emoção; sorri com nossos sorrisos; sonha os nossos sonhos.
Amigo é aquele que consegue aplaudir as nossas glórias, assim como consegue oferecer-nos o ombro quando dos nossos fracassos.
Quando parte, perdemos um braço! Ficamos menores, mais frágeis, mais tímidos, mais sós...
Amigo é para a vida inteira, ou para apenas um segundo, feito a aparição meteórica, que se perpetuará fortemente impressa em nossas retinas.
maria da graça almeida
Amigo é a extensão de nosso corpo, que tem vida própria. Não pensa, nem age como agimos, mas conosco interage como se fosse o terceiro braço de um mesmo corpo.
Não se envergonha de nossas fraquezas; não recrimina nossos deslizes; não nos aponta as vilezas; não nos dita regras; não nos impinge culpa; não nos exige juventude eterna...
Compreende nossas limitações. Entristece-se com nossos pesares; chora as nossas dores; emociona-se com nossa emoção; sorri com nossos sorrisos; sonha os nossos sonhos.
Amigo é aquele que consegue aplaudir as nossas glórias, assim como consegue oferecer-nos o ombro quando dos nossos fracassos.
Quando parte, perdemos um braço! Ficamos menores, mais frágeis, mais tímidos, mais sós...
Amigo é para a vida inteira, ou para apenas um segundo, feito a aparição meteórica, que se perpetuará fortemente impressa em nossas retinas.
maria da graça almeida
31 de maio de 2011
Formigas
Formigas
maria da graça almeida
Acomodo minha indolência
na cadeira preguiçosa
e o máximo que me deixo fazer
é estirar braços e pernas
na exata medida
de uma manhã desprovida
do acontecer.
Enquanto isso,
flagro as formigas
que, no silêncio
das filas em "ziguezague",
atrevem-se.
O bolo amanteigado de ontem
amanheceu sardento.
Centenas delas desbravam-no.
Roubam-me, as descaradas.
Movimentam-me o olhar
no movimento da marcha em retirada.
O que antes era bloco imóvel e único,
agora caminha multiplicado.
Adocicados fragmentos,
entremeados, passeiam nas
patinhas gulosas
das formigas “tarefeiras”.
maria da graça almeida
Acomodo minha indolência
na cadeira preguiçosa
e o máximo que me deixo fazer
é estirar braços e pernas
na exata medida
de uma manhã desprovida
do acontecer.
Enquanto isso,
flagro as formigas
que, no silêncio
das filas em "ziguezague",
atrevem-se.
O bolo amanteigado de ontem
amanheceu sardento.
Centenas delas desbravam-no.
Roubam-me, as descaradas.
Movimentam-me o olhar
no movimento da marcha em retirada.
O que antes era bloco imóvel e único,
agora caminha multiplicado.
Adocicados fragmentos,
entremeados, passeiam nas
patinhas gulosas
das formigas “tarefeiras”.
29 de maio de 2011
Livre
Livre
maria da graça almeida
Traga sempre na lembrança:
desprezo receitas,fórmulas,
desde minha tenra infância,
repudio regras, normas.
Abomino as cobranças
e tampouco as reconheço.
Ao jugo e à intemperança,
juro, não me submeto.
Quem me desejar cativa,
que abuse da sedução,
o limite que dela deriva
respeito com mansidão.
maria da graça almeida
Traga sempre na lembrança:
desprezo receitas,fórmulas,
desde minha tenra infância,
repudio regras, normas.
Abomino as cobranças
e tampouco as reconheço.
Ao jugo e à intemperança,
juro, não me submeto.
Quem me desejar cativa,
que abuse da sedução,
o limite que dela deriva
respeito com mansidão.
14 de maio de 2011
Celebridade
A juventude sente a falta de ídolos.Ou a juventude anda sem condições de reconhecer um ídolo verdadeiro. Motivo este que faz com que os personagens que despontem na mídia, mesmo sem marcar sua aparição com atos e feitos relevantes, mereçam admiração e a atenção dos jovens-...bem, só deles não, dos ditos experientes também.
Há uma corrida desenfreada em busca dos ”famosos" numa fabricação enganosa de talentos,na canonização de falsos santos, na veneração de pseudo-deuses.
Para ser celebridade hoje basta a carinha estampada na tela por algum tempo; celebridade não é mais o que os dicionários definem: reputação ilustre e estabelecida, notabilidade, renome.
Houve uma total distorção dos valores, não sei se por conta da precariedade de informações da população ou se da real escassez de celebridades vivas.
Perguntem às pessoas quais os seus ídolos. Aposto que ficarão decepcionados com as repostas e começarão a entreter-se com o mesmo questionamento que tenho agora: quais seriam as verdadeiras celebridades atuais? Creio que não conseguiríamos relacioná-las nem apenas nos dedos da mão esquerda.
Que prevaleçam, então, a admiração pelos nossos mortos célebres. Que a eles se voltem as nossas lembranças.
Glória aos imortais! Salve, salve!
Há uma corrida desenfreada em busca dos ”famosos" numa fabricação enganosa de talentos,na canonização de falsos santos, na veneração de pseudo-deuses.
Para ser celebridade hoje basta a carinha estampada na tela por algum tempo; celebridade não é mais o que os dicionários definem: reputação ilustre e estabelecida, notabilidade, renome.
Houve uma total distorção dos valores, não sei se por conta da precariedade de informações da população ou se da real escassez de celebridades vivas.
Perguntem às pessoas quais os seus ídolos. Aposto que ficarão decepcionados com as repostas e começarão a entreter-se com o mesmo questionamento que tenho agora: quais seriam as verdadeiras celebridades atuais? Creio que não conseguiríamos relacioná-las nem apenas nos dedos da mão esquerda.
Que prevaleçam, então, a admiração pelos nossos mortos célebres. Que a eles se voltem as nossas lembranças.
Glória aos imortais! Salve, salve!
13 de maio de 2011
A banda
A banda
maria da graça almeida
No lombo do vento,
nos ombros da chuva,
espero desnuda
a banda passar.
Retomo o assento
no colo do tempo,
aguardo, sem par,
a banda passar.
A vida sem graça,
que cedo espio
da velha vidraça,
não enche vazios.
Nas vilas da vida,
a banda não passa.
No mundo de Deus,
quem passa sou eu.
maria da graça almeida
No lombo do vento,
nos ombros da chuva,
espero desnuda
a banda passar.
Retomo o assento
no colo do tempo,
aguardo, sem par,
a banda passar.
A vida sem graça,
que cedo espio
da velha vidraça,
não enche vazios.
Nas vilas da vida,
a banda não passa.
No mundo de Deus,
quem passa sou eu.
11 de maio de 2011
De mim para mim
De mim para mim
maria da graça almeida
Esta é uma homenagem singular.
É homenagem que eu mesma me propus a prestar-me, posto que a considero justa e devida.
É homenagem do meu eu pessoa, para o meu eu mãe.
Gostaria que outras mães fizessem o mesmo, se, realmente, julgassem -se
merecedoras. Em paz eu ficaria se merecedoras todas o fossem.
Homenageio-me hoje, não movida pela comemoração convencional da data,
homenageio-me, sim, por ter sido uma mãe prudente e cumpridora dos deveres.
A calma habita minha alma...Cuidei, orientei, formei, informei. Acompanhei todas as fases da vida de minhas filhas,das mais amenas às mais conturbadas, com olhos atentos, com ouvidos aguçados.
Não descuidei de seus sentimentos, não me poupei ao envolver-me em seus sonhos, em suas frustrações e expectativas.
Mantive-me vigilante e presente, usei o Não sempre como forma de proteção, de carinho.
Dentro da minhas possibilidades, observei-lhes as necessidades físicas emocionais, respeitei-lhes as diferenças sem compará-las, sem confrontá-las, agindo com a justiça dos meus princípios morais e do meu conceito humanitário.
Não desconsiderei seus desencantos, nem desvalorizei suas conquistas.
Estive pronta para atuar em todas as situações que demandassem energia e pulso firme, assim como nas em que a delicadeza e compreensão fizeram-se prementes.
Por isso, hoje, imodesta, dou-me o direito de parabenizar-me e estendo tal felicitação às mães que, a despeito das dificuldades, dignamente, assumiram seu papel, papel este que só se aprende nos livros da intuição e na escola do amor.
Desejo-me, ainda, que, durante meu tempo de permanência junto às minhas filhas, não cometa nenhum deslize, que lhes comprometa a saúde física, mental e a felicidade, bem como o orgulho que, estou certa, elas sentem pela mãe, que bem desempenhou sua missão.
Desejo, ainda, que elas também, um dia, julguem-se no direito da auto-homenagem, pois assim, mais do que nunca, revalidarei as verdades da mensagem, a que ora me destino...
maria da graça almeida
Esta é uma homenagem singular.
É homenagem que eu mesma me propus a prestar-me, posto que a considero justa e devida.
É homenagem do meu eu pessoa, para o meu eu mãe.
Gostaria que outras mães fizessem o mesmo, se, realmente, julgassem -se
merecedoras. Em paz eu ficaria se merecedoras todas o fossem.
Homenageio-me hoje, não movida pela comemoração convencional da data,
homenageio-me, sim, por ter sido uma mãe prudente e cumpridora dos deveres.
A calma habita minha alma...Cuidei, orientei, formei, informei. Acompanhei todas as fases da vida de minhas filhas,das mais amenas às mais conturbadas, com olhos atentos, com ouvidos aguçados.
Não descuidei de seus sentimentos, não me poupei ao envolver-me em seus sonhos, em suas frustrações e expectativas.
Mantive-me vigilante e presente, usei o Não sempre como forma de proteção, de carinho.
Dentro da minhas possibilidades, observei-lhes as necessidades físicas emocionais, respeitei-lhes as diferenças sem compará-las, sem confrontá-las, agindo com a justiça dos meus princípios morais e do meu conceito humanitário.
Não desconsiderei seus desencantos, nem desvalorizei suas conquistas.
Estive pronta para atuar em todas as situações que demandassem energia e pulso firme, assim como nas em que a delicadeza e compreensão fizeram-se prementes.
Por isso, hoje, imodesta, dou-me o direito de parabenizar-me e estendo tal felicitação às mães que, a despeito das dificuldades, dignamente, assumiram seu papel, papel este que só se aprende nos livros da intuição e na escola do amor.
Desejo-me, ainda, que, durante meu tempo de permanência junto às minhas filhas, não cometa nenhum deslize, que lhes comprometa a saúde física, mental e a felicidade, bem como o orgulho que, estou certa, elas sentem pela mãe, que bem desempenhou sua missão.
Desejo, ainda, que elas também, um dia, julguem-se no direito da auto-homenagem, pois assim, mais do que nunca, revalidarei as verdades da mensagem, a que ora me destino...
11 de abril de 2011
Massacre
Massacre
maria da graça almeida
Com sofreguidão e sem pena,
num dia parido sem paz,
o delírio escreveu vil poema,
que imêmore não será...Jamais!
O coração está cheio de vazio
e o peito de vazio ficou cheio.
A insanidade com insensatos fios
ceifou belos sonhos ao meio.
O cemitério inflou-se de túmulos
ao sepultar jovens alunos,
agora no luto que é múltiplo
o pesar dilatou o seu turno.
A sombra da abjeta solidão
vagueia entre carteiras solitárias,
o desvario com maligna mão
arrancou inocentes da área.
maria da graça almeida
Com sofreguidão e sem pena,
num dia parido sem paz,
o delírio escreveu vil poema,
que imêmore não será...Jamais!
O coração está cheio de vazio
e o peito de vazio ficou cheio.
A insanidade com insensatos fios
ceifou belos sonhos ao meio.
O cemitério inflou-se de túmulos
ao sepultar jovens alunos,
agora no luto que é múltiplo
o pesar dilatou o seu turno.
A sombra da abjeta solidão
vagueia entre carteiras solitárias,
o desvario com maligna mão
arrancou inocentes da área.
8 de fevereiro de 2011
Sem conserto
Sem conserto!
maria da graça almeida
O bom e simples Vicente,
encontrando um amigo recente,
convidou-o à mesa de um bar
e puseram-se a conversar.
Entre goles mais além
e do povo o vaivém,
dos filhos contavam os feitos,
gabando-os lindos, perfeitos.
De repente na calçada,
franzinas, acanhadas,
surgiram três moças na praça,
andando com pressa, sem graça!
Vicente, assim que as notou,
ao amigo observou:
- Bem feia é a moça do canto,
causa-me, até, certo espanto!
- Sinto muito, amigo Vicente,
por sua pouca mesura,
mas aquela moça do canto
é Ana, a minha caçula!
- O amigo não entendeu,
não é a daquele canto,
falo é da moça ao lado,
a que tem o xale franjado.
- A moça quem se refere
e em quem seu veneno desfere,
tão somente é minha mulher
e não uma outra qualquer!
- Creio que mal me expliquei,
não são as das laterais,
refiro-me à que está no meio.
Desta, sim, o rosto é feio!
- A moça que está no meio,
de quem, sem delicadeza,
você diz do rosto feio,
é minha filha, a Tereza!
E pra terminar a história,
Vicente resolve ir embora,
dizendo com muito respeito,
antes do pé para fora:
- Desculpe-me, caro amigo,
por minha rude maneira,
mas nem lhe posso dizer,
que foi mera brincadeira.
Mais honesto é admitir-me
enredado numa teia,
já que a família inteira,
não tem jeito...é muito feia!
maria da graça almeida
O bom e simples Vicente,
encontrando um amigo recente,
convidou-o à mesa de um bar
e puseram-se a conversar.
Entre goles mais além
e do povo o vaivém,
dos filhos contavam os feitos,
gabando-os lindos, perfeitos.
De repente na calçada,
franzinas, acanhadas,
surgiram três moças na praça,
andando com pressa, sem graça!
Vicente, assim que as notou,
ao amigo observou:
- Bem feia é a moça do canto,
causa-me, até, certo espanto!
- Sinto muito, amigo Vicente,
por sua pouca mesura,
mas aquela moça do canto
é Ana, a minha caçula!
- O amigo não entendeu,
não é a daquele canto,
falo é da moça ao lado,
a que tem o xale franjado.
- A moça quem se refere
e em quem seu veneno desfere,
tão somente é minha mulher
e não uma outra qualquer!
- Creio que mal me expliquei,
não são as das laterais,
refiro-me à que está no meio.
Desta, sim, o rosto é feio!
- A moça que está no meio,
de quem, sem delicadeza,
você diz do rosto feio,
é minha filha, a Tereza!
E pra terminar a história,
Vicente resolve ir embora,
dizendo com muito respeito,
antes do pé para fora:
- Desculpe-me, caro amigo,
por minha rude maneira,
mas nem lhe posso dizer,
que foi mera brincadeira.
Mais honesto é admitir-me
enredado numa teia,
já que a família inteira,
não tem jeito...é muito feia!
15 de janeiro de 2011
Cordilheira
Cordilheira
Escrito por maria da graça almeida
Qua, 20 de Agosto de 2008 05:45
No Chile há muitos poetas. Não conseguia, eu, compreender o motivo de tal concentração, até quando, num hotel de Santiago, onde a janela abria-se despudoradamente para a magnitude das Cordilheiras, entendi! Envolvida por certa magia e estranha fantasia, consegui descobrir no perene espetáculo a abundância da fonte de onde flui a inspiração do chileno. Aí não tive saída, vigiando minha respiração, que já pressentia ofegante, larguei-me a escrever, olhando pela janela como se mirasse um quadro revelador das fronteiras do alumbramento e do limiar da alucinação.
Maria da Graça Almeida
Cordilheira
Maria da Graça Almeida
"Pós sinto" as pegadas dos deuses latinos,
pousando os pés divinos
sobre terras elevadas,
virgens meninas despenteadas.
Se uns o fizeram sutilmente,
outros calcaram de forma tal o chão,
que o viram, entre um passo e outro,
subir em altos picos, em duros bicos.
Meus olhos vagam pelo espaço alongado, recortado, sinuoso...
Galgam íngremes montanhas e, vertiginosamente,
despencam em quedas livres e fatais.
Depois, dão-se a escorregar e deslizar em pisos lisos,ou a rastejar, arranhando-se na aspereza da textura visual.
Quando, dos anjos meninos, o sopro cálido
derreter o frio espesso e alvo que se moverá,
graciosamente, sobre a austeridade do marrom,
meu ser todo frágil, tolo e perplexo,
suspirará ante o imensurável espetáculo
do perpétuo bolo achocolatado,
coberto por um branco e absurdo glacê,
que lindamente escorrerá desenhos
abstratos e fantásticos, jamais
consumidos por simples mortais.
Às vezes os Deuses sabem ser cruéis!
Muitos deles zombam da impotência dos homens.
Outros lhes testam o tamanho do conformismo.
Nem tudo o que fartamente lhes expõem aos olhos,
facilmente lhes dispõem às mãos.
Escrito por maria da graça almeida
Qua, 20 de Agosto de 2008 05:45
No Chile há muitos poetas. Não conseguia, eu, compreender o motivo de tal concentração, até quando, num hotel de Santiago, onde a janela abria-se despudoradamente para a magnitude das Cordilheiras, entendi! Envolvida por certa magia e estranha fantasia, consegui descobrir no perene espetáculo a abundância da fonte de onde flui a inspiração do chileno. Aí não tive saída, vigiando minha respiração, que já pressentia ofegante, larguei-me a escrever, olhando pela janela como se mirasse um quadro revelador das fronteiras do alumbramento e do limiar da alucinação.
Maria da Graça Almeida
Cordilheira
Maria da Graça Almeida
"Pós sinto" as pegadas dos deuses latinos,
pousando os pés divinos
sobre terras elevadas,
virgens meninas despenteadas.
Se uns o fizeram sutilmente,
outros calcaram de forma tal o chão,
que o viram, entre um passo e outro,
subir em altos picos, em duros bicos.
Meus olhos vagam pelo espaço alongado, recortado, sinuoso...
Galgam íngremes montanhas e, vertiginosamente,
despencam em quedas livres e fatais.
Depois, dão-se a escorregar e deslizar em pisos lisos,ou a rastejar, arranhando-se na aspereza da textura visual.
Quando, dos anjos meninos, o sopro cálido
derreter o frio espesso e alvo que se moverá,
graciosamente, sobre a austeridade do marrom,
meu ser todo frágil, tolo e perplexo,
suspirará ante o imensurável espetáculo
do perpétuo bolo achocolatado,
coberto por um branco e absurdo glacê,
que lindamente escorrerá desenhos
abstratos e fantásticos, jamais
consumidos por simples mortais.
Às vezes os Deuses sabem ser cruéis!
Muitos deles zombam da impotência dos homens.
Outros lhes testam o tamanho do conformismo.
Nem tudo o que fartamente lhes expõem aos olhos,
facilmente lhes dispõem às mãos.
12 de janeiro de 2011
O vento
O vento
maria da graça almeida
O vento chega-me à porta,
rodopia, vai e volta.
Entra sem ser convidado,
vem sozinho, sem escolta.
Desalinha-me os cabelos,
embaralha meus papéis,
sopra sobre os travesseiros
leva ao chão os meus anéis
Incomoda meu descanso,
assobia sem balanço.
E eu lhe peço nessa hora:
- Não quer ir ventar lá fora?
E o vento assanhado
diz sorrindo, bem a gosto:
- Pra sair sou obrigado
a ventar sobre seu rosto.
maria da graça almeida
maria da graça almeida
O vento chega-me à porta,
rodopia, vai e volta.
Entra sem ser convidado,
vem sozinho, sem escolta.
Desalinha-me os cabelos,
embaralha meus papéis,
sopra sobre os travesseiros
leva ao chão os meus anéis
Incomoda meu descanso,
assobia sem balanço.
E eu lhe peço nessa hora:
- Não quer ir ventar lá fora?
E o vento assanhado
diz sorrindo, bem a gosto:
- Pra sair sou obrigado
a ventar sobre seu rosto.
maria da graça almeida
Cenário bucólico
Cenário bucólico
maria da graça almeida
Doce de leite, abóbora e coco,
beijo roubado da boca do moço,
rede estirada ao sol de relance,
livro da vida esquecido na estante.
Vento ventando cantigas de amor,
crista do galo empanada na cor,
lenha a estalar no tosco fogão,
cheiro gostoso de sopa e feijão.
Bicho que pica, coceira que vem,
tarde chegando no apito do trem...
Sapo coaxa sem graça, arredio,
garça se mira nas águas do rio.
Égua que trota levanta a poeira,
homem, voltando, traz pó na canseira.
Dona a acenar na porta da casa,
ave se assusta e apressa as asas.
Filho que chora, chupeta no chão,
pão ressequido na palma da mão.
Riscos no céu, a paisagem se turva,
luz que se apaga é indício de chuva.
Cruz na janela, uma vela acesa,
prato trincado faz mais pobre a mesa.
A sopa e o feijão da pouca tigela,
não chegam à gata, não há para ela!
Sono batendo, um sopro à chama,
corpo cansado impõe peso à cama.
Sonho do homem inda é colorido,
mesmo com fome, outro filho é bem-vindo.
Maria da Graça Almeida
Da antologia da Confraria dos Poetas
maria da graça almeida
Doce de leite, abóbora e coco,
beijo roubado da boca do moço,
rede estirada ao sol de relance,
livro da vida esquecido na estante.
Vento ventando cantigas de amor,
crista do galo empanada na cor,
lenha a estalar no tosco fogão,
cheiro gostoso de sopa e feijão.
Bicho que pica, coceira que vem,
tarde chegando no apito do trem...
Sapo coaxa sem graça, arredio,
garça se mira nas águas do rio.
Égua que trota levanta a poeira,
homem, voltando, traz pó na canseira.
Dona a acenar na porta da casa,
ave se assusta e apressa as asas.
Filho que chora, chupeta no chão,
pão ressequido na palma da mão.
Riscos no céu, a paisagem se turva,
luz que se apaga é indício de chuva.
Cruz na janela, uma vela acesa,
prato trincado faz mais pobre a mesa.
A sopa e o feijão da pouca tigela,
não chegam à gata, não há para ela!
Sono batendo, um sopro à chama,
corpo cansado impõe peso à cama.
Sonho do homem inda é colorido,
mesmo com fome, outro filho é bem-vindo.
Maria da Graça Almeida
Da antologia da Confraria dos Poetas
Poesia com manteiga
maria da graça almeida
Prometeu-me ambrosias,
Literata, a cozinheira,
pelo gosto da estréia,
cheguei presta e faceira.
Só vi versos com geléia
e poesia com manteiga,
certas rimas lambuzadas,
emborcadas sobre a teiga.
Pus-me tonta e enjoada
da poesia e da manteiga.
No almoço, em contraponto,
terei letras de grandeza.
Um gostoso miniconto
será minha sobremesa.
Torço pra que Literata
desta vez não erre a mão
ou provarei pela errata
o sabor da indigestão.
maria da graça almeida
Prometeu-me ambrosias,
Literata, a cozinheira,
pelo gosto da estréia,
cheguei presta e faceira.
Só vi versos com geléia
e poesia com manteiga,
certas rimas lambuzadas,
emborcadas sobre a teiga.
Pus-me tonta e enjoada
da poesia e da manteiga.
No almoço, em contraponto,
terei letras de grandeza.
Um gostoso miniconto
será minha sobremesa.
Torço pra que Literata
desta vez não erre a mão
ou provarei pela errata
o sabor da indigestão.
7 de dezembro de 2010
Antes e depois
Antes e depois
maria da graça almeida
O antes, do derredor, é a influência;
o depois é o que sobra da essência.
O antes, do caso, é a antecipação;
o depois é o caso consumado.
O antes e o depois, da moeda, são os lados.
O antes, do fato, é pura ausência;
o depois é mera consequência.
O antes, da ocorrência, é o pressuposto;
o depois é tudo o que permanece no gosto.
O antes tão só é a efervescência,
pese-o bem, para que, no depois,
não lhe pese a consciência.
maria da graça almeida
O antes, do derredor, é a influência;
o depois é o que sobra da essência.
O antes, do caso, é a antecipação;
o depois é o caso consumado.
O antes e o depois, da moeda, são os lados.
O antes, do fato, é pura ausência;
o depois é mera consequência.
O antes, da ocorrência, é o pressuposto;
o depois é tudo o que permanece no gosto.
O antes tão só é a efervescência,
pese-o bem, para que, no depois,
não lhe pese a consciência.
Preciso dizer
Preciso dizer
maria da graça almeida
Não retenha ou represe
os ditos em minha garganta,
nem no peito os meus soluços;
a tranca é um corte no pulso;
a mudez é poço vazio;
a chave, o jazigo mais frio.
Não me aprisione as letras,
nem me esconda o dicionário,
o dizer não possui cadeado,
o sentir já é nó desatado.
Não me ameace o verso
com espinhos ocultos,
a dor é um grão submerso
nos mares dos velhos insultos.
Não me provoque com suas loucuras,
hoje, finjo crer em falsas procuras
e só as desarmo com simples ternura,
posto que a poesia é a figura,
que impune inda flutua
nas amargosas águas
das doces amarguras.
Não queira que me mova
tão só entre seus pontos,
que repinte seus traços,
que reconte seus contos.
Meu rumo é um desaponto?
Cada qual pisa os passos
com largueza, sem percalços.
Deixe que, livre, fotografe
com a lente que mesma eu puser,
responderei pelo mal, se um dia o fizer,
pois que ninguém jamais conduzirá a brisa
que, brejeira, bailando vem,
nem a bobice do vento mais forte
que só leva a poeira aos olhos de alguém.
maria da graça almeida
Não retenha ou represe
os ditos em minha garganta,
nem no peito os meus soluços;
a tranca é um corte no pulso;
a mudez é poço vazio;
a chave, o jazigo mais frio.
Não me aprisione as letras,
nem me esconda o dicionário,
o dizer não possui cadeado,
o sentir já é nó desatado.
Não me ameace o verso
com espinhos ocultos,
a dor é um grão submerso
nos mares dos velhos insultos.
Não me provoque com suas loucuras,
hoje, finjo crer em falsas procuras
e só as desarmo com simples ternura,
posto que a poesia é a figura,
que impune inda flutua
nas amargosas águas
das doces amarguras.
Não queira que me mova
tão só entre seus pontos,
que repinte seus traços,
que reconte seus contos.
Meu rumo é um desaponto?
Cada qual pisa os passos
com largueza, sem percalços.
Deixe que, livre, fotografe
com a lente que mesma eu puser,
responderei pelo mal, se um dia o fizer,
pois que ninguém jamais conduzirá a brisa
que, brejeira, bailando vem,
nem a bobice do vento mais forte
que só leva a poeira aos olhos de alguém.
8 de novembro de 2010
Arte
Criada por mentes brilhantes, a arte é uma mentira na qual todos, ou quase todos, acreditam.
O que vemos não existe na realidade, tudo é extraído do cérebro privilegiado do artista.
Facilmente confundimos o artista com sua criação ou vice-versa. É quando o criador e a arte que ele personifica fundem-se, tornando-se única forma, único ser, ainda que ilusórios.
Mesmo utilizando um modelo inspiratório, o artista o reproduz por meio de sua fantasia ou da maneira própria de reconhecê-lo, ainda que visionária.
As idéias utopistas, quiméricas não podem nascer de um cérebro comum ou de um que foi trabalhado para enxergar as coisas como realmente se apresentam, sem acrescentar sua inventividade.
Outro dia fiquei perplexa quando disse a uma criança:
-Sente -se aqui comigo , vamos pilotar este avião .
E ela admirada me respondeu:
-Isto não é um avião, é uma cadeira.
Aos pais e aos professores, cabem os cuidados de oportunizarem à criança situações em que possa fluir a criatividade, respeitando, considerando-a e, o mais importante, não coibindo sua ação.
O que vemos não existe na realidade, tudo é extraído do cérebro privilegiado do artista.
Facilmente confundimos o artista com sua criação ou vice-versa. É quando o criador e a arte que ele personifica fundem-se, tornando-se única forma, único ser, ainda que ilusórios.
Mesmo utilizando um modelo inspiratório, o artista o reproduz por meio de sua fantasia ou da maneira própria de reconhecê-lo, ainda que visionária.
As idéias utopistas, quiméricas não podem nascer de um cérebro comum ou de um que foi trabalhado para enxergar as coisas como realmente se apresentam, sem acrescentar sua inventividade.
Outro dia fiquei perplexa quando disse a uma criança:
-Sente -se aqui comigo , vamos pilotar este avião .
E ela admirada me respondeu:
-Isto não é um avião, é uma cadeira.
Aos pais e aos professores, cabem os cuidados de oportunizarem à criança situações em que possa fluir a criatividade, respeitando, considerando-a e, o mais importante, não coibindo sua ação.
Assinar:
Postagens (Atom)

