7 de maio de 2010

Alguém para me ouvir


Alguém para me ouvir
maria da graça almeida

Hoje, eu sei o motivo de tanta terapia...
Não mais há ouvidos que ouçam,
se não os devidamente remunerados,
afinal, há um novelo em cada garganta
e um engasgo geral.
Será que as pessoas ficaram insensíveis?
Será que o tempo, no tempo, encurtou?
Será que a distância, com a distância, aumentou?
Ou será que a indiferença é a tônica da questão?
Hoje queria sentá-los na cama, como se ainda fossem
pequenas crianças, e dizer-lhes:
ouçam, prestem atenção, quero falar, escutem,
escrever só não me basta, é como se eu falasse sozinha,
não há resposta, não há uma voz, não há um som, não há troca.
Um desabafo por escrito não recebe a benevolência
de um gesto de amor, de um olhar afetuoso,
de uma palavra doce. Meu escritor aqui escreve
por falta de opção, por não ter com quem dividir
as expectativas, a ansiedade, o medo, a reflexão.

Deus! Tanto choro escutei, com paciência e mansidão;
tantas lágrimas aparei, com inexperientes mãos.
Será tão difícil ouvirem sem criticar,
escutarem sem agredir, calarem-se para ouvir-me?
O que incomoda a mim, pra vocês, eu sei, é bobagem
e o que os incomoda, para mim, saibam, é martírio.
Este é o diferencial, porém, quando suas
gargantas estiverem presas por falta de quem os escute,
falem comigo, pois, se eu não mais tiver a carnal condição de ouvir,
terei toda vontade astral de suas mágoas tentar reduzir.

6 de maio de 2010

A letra fala o que a boca engasga


A letra fala o que a boca engasga. A letra arruma o que a fala estraga. A letra aviva o que a voz apaga/M.da Graça Almeida

4 de maio de 2010

POEMAS CURTOS - Sulcos - Natureza Humana - Durante



POEMAS CURTOS

Sulcos
maria da graça Almeida

Talvez só um riso escancarado
aliviasse o amargor do ricto
que nos envelhece a face.
Não adianta a maquiagem.
Na solidão de um ventrículo vazio,
na seriedade de um ventríloquo mudo
não há disfarce que suavize
uma boca entre parênteses.


Natureza Humana
maria da graça Almeida

Sorriso enluarado,
longos braços de mar,
olhos de chuva leve,
mãos de doce ventar,
riso de queda d´água,
seios, vastas colinas,
cabelo, anel de nuvens
pernas, árvores finas.

Durante
maria da graça almeida

Durante é a hora
do tempo presente,
é tempo de agora,
que morre depois.
No tempo distante,
é tempo carente,
que fora do tempo,
perdido se foi.

Miséria


Miséria
maria da graça almeida

A fronte suada
que toca o chão,
sem fé ou certeza,
sem força pra nada,
suplica-lhe o pão
que cedo lhe falta.
A terra, que nega,
o braço suspende,
o grão não entrega,
a mão não estende.
O abutre tem pressa.
E, parca, a carcaça
nem enche o ventre
da ave que a caça.
A fome da ave
tem fome do homem
e a fome do homem
-eterna desgraça-
perpétua, não passa,
perene, não some-.

Conquistas
maria da graça almeida

Para o aprendizado e crescimento do homem,
o não inevitavelmente contribui,
seja ele de real ou de aparente contundência.
O que vem pronto não se busca;
do que não se busca não se apropria.
Da mão beijada, a chuva passageira;
do suor da conquista, a hidratação permanente.
O que se ganha é a efemeridade do ramalhete;
o que se planta é a certeza da semente.

3 de maio de 2010


Perplexidade
maria da graça almeida

Diante de fatos escandalosos e atos que ferem a dignidade de qualquer indivíduo de “bom caráter” percebemos três tipos olhares, com a capacidade de transmutarem-se no decorrer do tempo, por meio da frequência com que os episódios acontecem.
O habitual não é estranhável. A bem da verdade, não sei se absorvemos os hábitos ou se eles nos absorvem...

1- O primeiro olhar é o da lucidez. Permite-nos que, ao nos depararmos com fraudes, falcatruas, ignomínias, fiquemos estarrecidos, perplexos; inibamos a fé na humanidade. Passemos a achar que somos o único grão de trigo em meio de uma plantação de joio.

AÍ, GRITAMOS, ESPERNEAMOS, SAÍMOS PELAS RUAS EM PROTESTO!

2- O segundo olhar é o olhar da preguiça, enxergamos, mas não temos a disposição suficiente para agir com contribuição positiva na tentativa de acertamos o desacerto. É como se estivéssemos anestesiados das virtudes, dos princípios. É como se nossos valores estivessem desbotando e o véu da inércia tolhesse-nos as reações necessárias.

AÍ, SUSPIRAMOS, BOCEJAMOS E VAMOS DORMIR DE PANTUFAS!

3-O terceiro olhar, o mais perigoso, é o que comumente anda vazando pelos olhos, principalmente os dos brasileiros. É aquele que enxerga bem, capta a essência dos fatos, mas que se tivesse a oportunidade compactuaria com as vergonhas, com as vilezas que também o fizessem usufruir os privilégios.

AÍ, DAMOS DE OMBRO E SONHAMOS COM UM IATE, UM JATINHO E UMA COBERTURA NA VIEIRA SOUTO.

Infelizmente, este, o pior dos olhares, é o que mais comumente
encontramos por aí.
Valha-nos, Santa Luzia, a santa protetora dos olhos!

Em que situações já usamos os olhares 1, 2 e 3?
Fácil:
Olhar 1- escândalo do Executivo-
Olhar 2- escândalo do Legislativo -
Olhar 3- escândalo do Judiciário -
(Até tu Brutus?)
Corruptos julgam corruptos?


ENTÃO... A QUEM RECORRER?
..................................................................
Ei! Querem tirar os olhos de meus carros novos? Acertei na loteria...vinte e sete vezes!

Língua líquida
maria da graça almeida

A líquida língua vaza! Infiltra-se entre os dentes, rompe os limites dos lábios, gotejando boca afora ou entornando livremente... Não há fronteira que a reprima, não há limite que a contenha. O dono da língua líquida possui ouvidos alados que saem pelas orelhas, lúcidos ou atordoados, diretos ou de qualquer maneira e, colhendo informações, voam pra todo lado! Temo essa língua por ela, pelos ouvidos que a acompanham e por todos ouvidos alheios nos quais chega, sem medo, a relevar os segredos. Se uma dessas, liquefeitas, vem molhar-me os ouvidos, afasto-a rapidamente, secando depressa o líquido, temendo que tal proximidade, impune, contamine-me a língua e que por momentos, instantes ou pelo restante da vida, liquefaça-a abundante, infame larga, solta e incontida...

1 de maio de 2010


Instrumento
maria da graça almeida

Jamais quero estar,
do mundo, em algum lugar,
onde, de certa maneira,
usem-me como instrumento
das desventuras alheias.

Jamais quero servir
de arma para cumprir
os desígnios de um destino,
ainda que tais desígnios
tracem tão-só o caminho
de apenas um passarinho.

Precipitação
maria da graça almeida



Não julgue

o peito pela gravata,

o ser pela data,

a voz pela boca,

a cabeça pela touca,

o fato pelos sentidos,

o cão pelos latidos.



Não rotule

o presente pela caixa,

o vinho pela garrafa,

o livro pelo autor,

a peça pelo ator,

o feito pelos perigos,

as dores pelos gemidos.



Não classifique

o homem pelo retrato,

o pão pelo formato,

a comida pelo prato,

o perfume pelo frasco,

a mulher pelos vestidos,

o casamento pelos maridos.



Seja lá o que for,

avalie apenas

quando sabedor

da massa que recheou

as profundezas

do espaço interior.

Monorrimo paupérrimo-em todos os sentidos-
maria da graça almeida

Sobram bocas, falta o pão,
sobre a terra nenhum grão.
Muitos dentes, poucas mãos...
muitos filhos, pouco chão,
pouco sim e muito não,
sem o arroz, sem o feijão,
fio de água sem sabão.
Sobre a terra nenhum grão,
sobram bocas, falta o pão.

Poucos passos, muitos pés,
muita reza, pouca fé;
pouco agora, muito até,
sem manteiga e sem café,
baixo o som, alto o banzé,
tantos ossos sem filé ,
um doutor, vários Josés.
Poucos passos, muitos pés;
muita reza, pouca fé .

Sobre a terra nenhum grão,
sobram bocas, falta o pão.
Poucos passos, muitos pés,
míngua a reza, finda a fé.

Pintura de Rembrant
maria da graça almeida

O embotamento sexagenário
caracteriza as dores da figura.
Na rigidez da postura,
o homem compõe o cenário
com os odores da clausura.

30 de abril de 2010


Maria da Graça Almeida por
José-Augusto Carvalho
Viana do Alentejo- Portugal



O discurso, o estilo, a versificação... e que mais?
A Poetisa Maria da Graça Almeida conseguiu encontrar a beleza da pluralidade temática na singularidade poética. Queremos com isto dizer que a Poetisa é sempre ela mesma, porque o seu discurso nunca viola o seu estilo. Nem poderia violar, porque as emoções são autênticas, são saboreadas, são sentidas, são sofridas!
A versificação é, em Maria da Graça Almeida, mais uma variedade de ritmos do que uma norma pré-estabelecida. Cultiva tanto o versilibrismo como o verso medido.
E com a mesma desenvoltura e a mesma segurança.

* Nota final. Necessária. Indispensável. Rigorosa.
Sabemos e queremos este trabalho como uma aproximação
à Poesia de Maria da Graça Almeida. Uma descoberta a
desafiar quem não leu a sua poesia.
José Augusto de Carvalho

Beija-flor
maria da graça almeida

Toda vez que comovido
bem de leve toca a flor
sai com o bico ferido,
retirando-se sem cor!

Desolada com a cena,
a Margarida com pena,
doce, pede ao passarinho,
que lhe dê o seu carinho.

A ave, voando em festa,
pressente do espinho a dor
e teimosa só empresta
beijos sempre à mesma flor!

Margarida com ciúme,
desprovida do perfume,
chora ao vir o bem amado
pela Rosa maltratado:

-Não tenho dela o olor,
porém, não possuo espinhos,
beije-me com muito amor,
eu não firo passarinhos!

- Flor miúda, graciosa,
meu martírio ora lhe digo,
eu jamais amei a Rosa,
amo apenas o perigo!

maria da graça almeida

Branquinha
maria da graça almeida

Sou aquosa e incolor,
finjo ser inofensiva,
trago forte o sabor
e no efeito sou ativa.

Que ameaça com alarde,
do engenho, sou a "cana".
Encorajo os covardes
e eles metem-se à bacana.

Ébria, eterna, eu barganho
o inteiro pelo meio.
Os caminhos eu estranho
e as mentes incendeio.

Sou no mundo a má semente
e do vício, o lado quente.
Sou nascida pra que aclame
quem nasceu para o vexame.

29 de abril de 2010


Música
maria da graça almeida

A música insiste
em meus ouvidos.
O tom indeciso,
os intervalos titubeantes
ferem feito o chicote
no dorso de um fugitivo
resgatado para
cumprir a sentença.
Ou, tais quais as pedras
nos pés doridos
de um faminto retirante ,
sozinho,
perdido pelos
atalhos do caminho.

As notas de sofreres
ensimesmados,
por livre arbítrio,
abusam da liberdade
das fermatas.

Nas pautas do desalento,
os sons ousam um agudo.
É quando o dissabor da partitura
indicia colcheias amedrontadas
pinçadas do pensamento;
semifusas confusas
e claves angustiadas,
que apenas denominam
os lamentos.

Os acordes dissonantes gemem
entre pausas contundentes.
E o girassol...
Ah! Os girassóis... se pelo menos
não se voltassem para ouvi-la...
mas, a sonoridade se atreve
e a melodia descreve
o mesmo percurso do sol.


maria da graça almeida

Autenticidade
maria da graça almeida

A criança é surpresa, é descoberta. Não se abate pelo tédio, não se oculta em segredos, nem tem razão para o remorso. Permite-se ousar, por isso pratica os sonhos, com a mesma serenidade com que adormece.
Quando não sabe, inventa; quando não pode, imagina; quando desconhece, descobre.
O que para nós - os já saturados de realidade - é absurdo, para ela é normal, natural. Suas possibilidades ainda não foram poluídas ou influenciadas pela racionalidade humana, pela indocilidade urbana, nem pela crueldade social.

Aos três anos, Felipe, filho único, queria um irmão. Remexeu o armário das panelas. Colocou-as no chão e, com a colher-de-pau, acreditava cozinhar.
Compenetrado, explicou à mãe:
- Vou fazer um irmãozinho.

Empreendia a batalha para a realização do desejo, uma ação positiva, advinda da certeza do querer: eu quero e faço, não espero por ninguém. Eu quero e consigo, ou, dou-me o direito e a oportunidade de tentar.
Ainda que não tenha verbalizado o pensamento, sua ação, por si , veemente, proferiu o discurso.
O equívoco de uma manobra não invalida a tentativa e nem frustra o manobreiro, uma vez que, a cada experimento, saímos reforçados nos propósitos e sentimos, plena, a nossa determinação.

Paris
-maria da graça almeida-

Paris tem certa magia,
nem bem posso explicar...
É uma coisa que indicia
o elã, livre, no ar.
É a alma que se amplia,
como um raio de luar,
é a cor da fantasia,
que se espalha no lugar.

É a arte do imortal,
ou o ofício do mambembe,
é a tinta natural,
da mão firme, que não treme.
É a torre colossal,
férrea, que o espaço não teme.
É um arco triunfal,
das avenidas, o leme.

É o perfume, o olor
da mulher que não se apressa,
é, no Sena, o rumor
dos barcos, fazendo festa.
Paris tem certa magia,
nem bem posso explicar...
É uma coisa que indicia
o elã, livre, no ar. ...

O filho do meio
Do livro Olhos Espertos

De Maria da Graça Almeida

Assim tão bonito...
e ninguém me adula!
Não sou o primogênito,
nem sou o caçula.
Não sou o primeiro,
tampouco, o terceiro.
Sou filho do meio
e, de graça, sou cheio
Do tal sanduíche,
sou só o recheio.
Mas...digo a verdade
e ganho a aposta:
sempre é do recheio
que todos mais gostam!

27 de abril de 2010

Benedita 
maria da graça almeida

 Moça nova, a Benedita... 
 sorri com ares de santa.
 E as provações, tantas!
 Os óculos são cegos, 
 a muleta claudica,
 a bengala manca. 
 A artificialidade externa é falha.
 Melhor se inda contasse
 com a locomoção pelas próprias pernas;
 com a emoção pela própria visão.
   A crueldade interna atrapalha. 
 Moça nova, a Benedita... 
 À prova, não mais me fita,
 tampouco me acompanha.

Lavadeira
maria da graça almeida

- E a cinza da fornalha
entranhada na toalha?
- Da minha unha está embaixo,
ou desceu pelo riacho...
........................

Sob o balde, a rodilha,
esmagada, sobe a trilha.
Amarrada em velha colcha
mais pesada é a trouxa.

Ligeirinha, a toda hora,
molha, lava, torce e cora.
Braço fino, sem canseira,
vai lavando, a lavadeira.

Extremosa, em boas águas,
ensaboa, bate e enxagua.
Ao trabalho não se nega,
examina, afoga, esfrega.

Sobre a calça e a camisa,
a espuma economiza.
Quando roto o vestido,
lava o fio só de comprido.

Louva o vento, estica a lida
no varal pendura a vida.
A alvura da bandeira
credencia a lavadeira.
Confessional
maria da graça almeida

Mesmo com a lembrança inconveniente,
o esquecimento fatal, a falta de requinte,
o jeito natalino de enfeitar-se;
mesmo com os excessos, as omissões,
as doações e as mesquinharias,
mesmo com os palavrões
ou os prolongados silêncios,
sua presença é desejada.
Sinto falta das sonoras gargalhadas,
entristeço-me em face da distância,
de sua existência destrambelhada.

Dos que me conquistam,
suporto os defeitos...
Acostumo-me com os deslizes
e tenho-os apenas tais quais
pueris arroubos de uma autêntica
personalidade.
Quando gosto é assim.
Abro as comportas da emoção!
Aos amigos, tudo! Aos desafetos,
que são menos do que os dedos de u a mão,
apenas o que pode suportar a mágoa
que me descompassa
o coração.

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Amar
maria da graça almeida

Amar é o arrepio que se sente no verão;
é levitar sem tirar os pés do chão;
é tentar dormir para outra vez sonhar
um sonho do qual não se quer mais despertar.

Amar é carregar um fardo de emoção,
é gelar as mãos no afã da pulsação;
é crer anil um céu dormente e desbotado
e ter o dia feito domingo ou feriado.

É o reflorescer seja em qualquer idade
e entre a razão e o coração pressentir
que a paixão não tem prazo de validade.

É manter no amado o primeiro namorado
e encantar-se com seu jeito de sorrir,
mesmo que com este já esteja acostumado.

26 de abril de 2010



O Vaga-lume
maria da graça almeida

Pisca, pisca o vaga-lume,
tão bonito é seu lume!
Pisca sempre sem parar,
seu piscar já é costume.

O miúdo vaga-lume
causa até muito ciúme,
pois, constante e interna,
ele traz sua lanterna.

Ela é feito a luz do dia,
toda cheia de energia,
nem precisa o vaga-lume
trocar sua bateria!

maria da graça almeida
ma.gla@uol.com.br

Poema Artesanato
Maria da Graça Almeida


Minha poesia é inglória,
vive em bancas incertas.
Do pódio e das vitórias,
traduz histórias discretas.
Nos dizeres, incontida,
minha poesia é de lua,
às vezes, reza vestida,
às vezes discursa nua.
Meu poema é artesanato.
E sai-me pronto das mãos.
Coso-o, com muito cuidado,
cirzo-o, sem distração.
Às vezes vem das sucatas,
de contas e velhos botões,
de renda e fitas baratas,
da fieira dos piões.
Que ressona atrás da porta,
tem os pêlos de um cão,
no final das linhas tortas
traz pena, paina, algodão.
Tem cores das violetas,
pose de pedra-sabão.
Nas asas da borboleta,
nem coloca os pés no chão.
O poema-artesanato
traz ponto-cruz, bordaduras.
É sempre um simples retrato
de uma notória figura.

25 de abril de 2010


No dia seguinte...
maria da graça almeida

Brinquedos, biscoitos
jogados ao chão
nos vidros e sofás,
indícios de mãos.
Findou a euforia,
graça, confusão!
Rompeu novo dia
vazio de emoção.

21 de abril de 2010


Abstrato quê
maria da graça almeida

Em meus ouvidos moram gemidos, que soturnos retraem-se;
no coração trago mitos que um dia enalteci,
em minha boca tenho gritos, que emudecidos esvaem-se;

Através de certas feridas, tardiamente, entendi
que as cores da vida, da aura e da alma dependem das dores que cada um traz dentro de si.

É impossível interagir com enigmáticas damas,
que têm, justa, a fama de levarem no trato um quê
do triunvirato mais abstrato que já conheci.



O servir -ainda que, às vezes, religiosamente
correto- cansa. Cada um responde ao servilismo
como melhor lhe aprouver.
Maria da Graça ALmeida

Maria Mortalha

Maria da Graça Almeida


Cedo, deitou-se Maria, pronta pra logo morrer,

vestindo a alva mortalha, sem medo de adormecer.

Os olhos, tanto mais fundos, coroados por olheiras,

cerravam-se moribundos, nessa hora derradeira.



Implorando-lhe ajuda, veio um moleque qualquer

- Vó, apanha uma agulha, tira-me o bicho do pé!

Servil, levanta a Maria, desvestindo a alva mortalha

e já mais morta que viva o bicho do pé estraçalha.



Volta, esvaída, Maria para o bom leito de morte,

quando lhe chega a nora , chorando a fome e a sorte.

Maria, do quarto, dormente, sai e aquece o fogão,

serve-lhe o leite fervente e duros nacos de pão.

Com a fome, então, saciada e o corpo fortalecido,

parte a jovem senhora com olhos agradecidos.



Maria assim, novamente, põe-se no leito de palha,

julgando que certamente não mais tiraria a mortalha.

E eis que lhe chega a vizinha com um pote tosco à mão.

Queria do sal só um pouco que lhe salgasse o feijão.

Maria deixa o leito... que a Morte espere um instante...

pra atender a boa vizinha, ergueu-se mesmo ofegante.

Bem cheio o pote de sal, a dona vai-se embora.

Maria já fria descora e aguarda da Morte a hora.



A Morte, que vinha chegando, notou-a em pele ardente,

porém, percebeu que a lida tornara Maria valente.

Vendo a mulher à espera, recolhida em seu leito,

ordena que se levante e atenda-a com medo no peito.

Maria coloca, surpresa, os olhos esbugalhados

sobre as vestes que a Morte trazia em trapos rotos, rasgados.



A Morte impõe, soberana: - Sobreviva só mais um dia,

ainda que condenada, cosa-me a capa, Maria!

E apontando-lhe as entranhas, ressecadas e vazias,

exige-lhe que ao fogo torne o leite que frio jazia.



Maria salta do leito, arranca a tal da mortalha

e sem mesura ou respeito, rebelde, à Morte detalha:

- Em face dos desmandos alheios,

viverei mais um ano e meio.



Maria da Graça Almeida/2001
texto publicado na Antologia Prêmio Cultura Nacional



6 de agosto de 2009
















Pai com açúcar

Maria da Graça Almeida

Queria o ídolo
ainda criança,
de gesto profundo,
de crenças maduras,
que me acalentasse
com voz da infância
e me orientasse
na vida futura.

Queria o ídolo
tranquilo na fala,
sereno nos olhos,
suave nas mãos,
disposto ao livro
das velhas escalas,
pra fácil compor
a nova canção.

Queria o ídolo
de francas verdades,
que orasse em silêncio
e ouvisse a razão
e na noite finda
tal qual serenata
abrisse as comportas
da antiga emoção.

Queria o ídolo
de farta poesia,
de longos poemas
e breves haicais.
Queria de novo
o meu velho amigo,
queria outra vez
as doçuras do pai.

16 de janeiro de 2009


Tristeza ou saudade?
maria da graça almeida

Instala-se, tão-somente,
em constante indagação.
Repousa nos olhos carentes,
pousa no aceno das mãos.

É dor funda, duplicada,
"com fusão" de sentimentos?
É tristeza, ou é saudade
espalhada peito adentro?
São as duas que se fundem
e confundem a realidade?

São os males, com certeza,
dupla sem identidade.
Ora se julgam tristeza...
ora se crêem saudade.